Após cinco anos de sangue, sátira e chutes no estômago da indústria de super-heróis, The Boys chega ao fim com o barulho de uma boneca de pano rasgando ao meio.
A temporada final começou com o Capitão Pátria (Antony Starr) no topo do mundo, controlando os EUA com punho de ferro e um sorriso de comercial de margarina após a queda do governo. A resistência, liderada por um Billy Bruto (Karl Urban) cada vez mais próximo de se tornar o monstro que jurou destruir, precisava dar um último golpe. O problema é que, entre o episódio inicial e o desfecho, a série tropeçou em suas próprias entranhas. A quinta temporada engasgou com tramas paralelas inchadas e um episódio final que, apesar de violento, machuca mais pela apatia do que pela dor.
Sangue na Piscina de Bolinhas: Onde a Sátira Perdeu o Rumo

O grande trunfo narrativo desta temporada, e também sua maior falha, foi a saturação do deboche. Desde o início, The Boys sempre equilibrou humor negro com crítica social afiada. Na quinta temporada, o prato pendeu muito para o lado da piada vazia.
O exemplo mais emblemático está no episódio 5 (One-Shots). Ao invés de focar na urgência política, o roteiro gasta tempo com Soldier Boy (Jensen Ackles) perseguindo o atrapalhado Senhor Maratona (Jared Padalecki) em sua própria mansão. A cena em que Maratona usa sua super velocidade para transformar convidados famosos como Seth Rogen, Christopher Mintz-Plasse e Craig Robinson em participações hilárias em montes de sangue é, sem dúvida, divertida.
Contudo, essa mesma sequência exemplifica o grande defeito da temporada: ela zomba da violência que antes justificava a existência do grupo. A morte de Robin, no piloto, foi traumática para Hughie e para o público. Ver celebridades explodindo de forma idêntica apenas para arrancar risadas mostra como a série perdeu o senso de consequência. É um tiro que saiu pela culatra.
Além disso, o ritmo agonizante nos episódios centrais só foi quebrado pela morte de Frenchie (Tomer Capone) no episódio 7. Em uma cena de sacrifício genuinamente emocionante, ele se expõe à radiação para proteger o grupo de um Homelander enfurecido. A dor de Kimiko ao segurar seu corpo foi real e pesada, uma raridade nessa temporada que preferiu o sarcasmo à tristeza.
Elenco e Atuações: Karl Urban e Antony Starr em Chamas

Se a narrativa vacilou, o núcleo de atuações manteve a série de pé até o último segundo. Antony Starr, como Capitão Pátria, continuou roubando a cena com a precisão de um bisturi. Ele transita entre a vulnerabilidade chorosa de um homem obcecado em se tornar um Deus vivo (potencializado pelo sangue V1) e a frieza psicopata de um ditador com uma naturalidade aterradora.
O confronto final entre ele e Karl Urban (Billy Bruto) foi o ápice da série. Urban finalmente entregou um Bruto totalmente no abismo. Sua lógica de “o fim justifica os meios” chegou ao limite quando ele decidiu liberar o vírus genocida, forçando Hughie (Jack Quaid) a tomar uma atitude irreversível.
O elenco de apoio brilhou em momentos isolados:
- Karen Fukuhara (Kimiko): Entregou sua melhor atuação silenciosa na temporada, com a dor mórbida pela perda de Frenchie ecoando em cada olhar.
- Chace Crawford (Profundo): Cumpriu sua cota grotesca, terminando sabotado pelo Noir II e encontrando um fim poeticamente trágico nas mãos (e tentáculos) de seu fetiche bizarro.
- Erin Moriarty (Annie): Surpreendeu ao liderar a resistência e encontrar forças para enfrentar o fascismo da Vought de frente.
Direção e Fotografia: A Realidade Suja do Poder

Visualmente, a temporada manteve o padrão primoroso de produção. A fotografia continuou valorizando o contraste entre o brilho falso e gospel dos estúdios da Vought e a sujeira dos esconderijos dos rapazes. A direção de Philip Sgriccia e Eric Kripke abusou do close-up nos momentos de tensão política, enfatizando o terror banal do autoritarismo.
No entanto, pecou gravemente na escala. A aguardada batalha final aconteceu em salas apertadas e resolveu-se de forma rápida e pouco inspirada para um conflito construído por anos, deixando a nítida sensação de que o orçamento estourou antes do clímax que o público merecia.
Contexto Temático: O Fascismo em Frente ao Espelho

A quinta temporada foi, antes de tudo, um tratado sobre o Fascismo Morno. Eric Kripke jogou na cara do espectador a banalidade do mal político. O Capitão Pátria virou a personificação de um tirano que usa “Freedom Camps” (Campos da Liberdade) e pratica a barbárie dentro de uma legalidade distorcida.
A temporada questionou: é moral permitir o genocídio de uma espécie inteira (os Supers) para acabar com a tirania? Billy Bruto representou a resposta radical, enquanto Hughie defendeu a linha tênue entre justiça e sobrevivência da própria humanidade. No fim, a série sugeriu que a solução não é apenas explodir o sistema, mas tentar juntar os cacos que sobraram, ainda que com as mãos sujas de sangue.
O Episódio Final: “Blood and Bone” e o Peso do Fim
Vejamos o histórico. A primeira temporada redefiniu o gênero de super-heróis. A segunda e a terceira elevaram a aposta com o terror psicológico. A quarta já mostrou sinais claros de cansaço, e esta quinta temporada enterrou a série em um mar de boas intenções mal executadas.
O episódio final, “Blood and Bone”, acabou sendo o maior vilão da própria história. Nele, Hughie mata Billy Bruto para impedir o genocídio do vírus. A temporada entregou o que prometeu em termos de carnificina, mas falhou em dar ao público aquela sensação de catarse. O final foi arrumado, uma verdadeira checklist de desfechos: Kimiko e Annie tentando recomeçar, o sistema sendo reformado por dentro, mas sem o soco no estômago que fez a série famosa no passado.
Um Desfecho Agridoce
A quinta temporada de The Boys foi uma despedida agridoce. Antony Starr e Karl Urban carregaram o piano nas costas até o fim, mas a bagagem estava pesada demais para os roteiristas sustentarem. O excesso de piadas metalinguísticas, a perda de impacto dramático das mortes e um desfecho que preferiu a segurança à ousadia impediram o encerramento de ser lendário. Para quem acompanhou a jornada desde 2019, vale pelo fechamento de ciclo. Para a história da TV, fica o registro de uma sátira que durou tempo demais para o seu próprio bem.
Nota IMDb: 8.6/10
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