“Cuidado com o que você deseja” é um aviso tão gasto pelo terror que já se tornou quase um clichê. Mas o que acontece quando a realização de um desejo de amor não vem na forma de um monstro ou de uma assombração, e sim como um sorriso meigo, um abraço apertado e olhos brilhando de uma devoção que beira o colapso mental?
A estreia do diretor Curry Barker em Obsessão (Obsession, 2025) propõe essa premissa torta e a executa com uma precisão cirúrgica, transformando um galho mágico de US$ 7 em uma das ameaças mais sutis e aterrorizantes que o gênero viu nos últimos anos.
Virtudes e Defeitos: Onde o Terror Cresce e Onde Ele Tropeça

A maior virtude de Obsessão é a maneira como Barker domina o desconforto cotidiano. Em vez de depender de jump scares exaustivos, ele prefere o horror que se esconde no intervalo entre um gesto carinhoso e uma reação perturbadora. A cena em que Nikki (Inde Navarrette) prepara o almoço para Bear (Michael Johnston) e arranca violentamente um fio de cabelo da comida, apenas para sorrir docemente depois, é um exemplo brilhante: somos tomados por uma agonia que vem da quebra de uma lógica emocional que conhecemos muito bem.
A produção, mesmo com um orçamento enxuto de menos de US$ 1 milhão, tem uma fotografia impecável de Taylor Clemons, que usa as sombras para sinalizar a corrupção lenta da protagonista e cria uma atmosfera sufocante em locações comuns, como uma loja de discos e um apartamento modesto.
Porém, o filme peca pelo subaproveitamento de sua própria mitologia e de seu elenco coadjuvante. A personagem Sarah (Megan Lawless), por exemplo, é introduzida como uma colega de trabalho claramente apaixonada por Bear, um possível triângulo que adicionaria camadas de ironia trágica à trama. No entanto, ela fica relegada ao segundo plano por grande parte do tempo. Além disso, o roteiro comete um erro lógico ao ignorar o óbvio: Bear demora um tempo irreal para retornar à loja esotérica onde comprou o “Salgueiro dos Desejos” depois que as primeiras manifestações bizarras acontecem, um detalhe que o próprio diretor já admitiu em entrevistas recentes.
Atuações e Personagens: Michael Johnston e o Peso da Inocência

O diretor Curry Barker demonstra um talento notável para direção de atores, extraindo performances que sustentam o terror psicológico com uma veracidade crua.
Michael Johnston como Bear: Johnston entrega um dos retratos mais complexos do “cara legal” moderno. Ele não interpreta Bear como um vilão; pelo contrário, sua atuação é encharcada de uma vulnerabilidade cativante que faz a audiência torcer por ele nos primeiros minutos. No entanto, é justamente por esse carisma de “coitado” que Johnston nos faz esquecer, por um momento, o horror do não-consentimento implícito no ato de Bear. Seu sofrimento físico e psicológico na reta final é visceral.
Inde Navarrette como Nikki: Navarrette é a revelação absoluta. Sua Nikki precisa performar uma gama inacreditável de emoções em um único olhar: doçura genuína, desejo sufocante, medo primordial e breves lampejos de sanidade aterrorizada. A cena do “jantar a dois” é um show à parte, onde seu sorriso parece esculpido em cera derretendo, incapaz de esconder o monstro que habita aquela devoção forçada.
Contexto Temático: A Ambição Romântica e a Violência do Desejo

Mais do que uma fábula sobrenatural, Obsessão é um perturbador ensaio sobre poder e moralidade nos relacionamentos. O filme torce o clichê da comédia romântica, onde o protagonista persistente sempre conquista a garota, e o expõe como uma forma de violência psicológica. Bear não conquista Nikki; ele a coloniza.
O ponto central aqui é o consentimento. A versão encantada de Nikki não escolhe estar ali; ela foi programada para ser o objeto de desejo de Bear, perdendo sua agência, seus sonhos e sua personalidade vibrante no processo. Barker inverte a expectativa ao fazer com que a fonte do horror não seja a ameaça externa, mas sim a realização de um desejo romântico profundamente problemático e, em sua essência, egoísta. O verdadeiro monstro não está no galho encantado, mas na fantasia de posse total sobre o outro.
Direção e Fotografia: A Poética do Desconforto

A direção de Curry Barker é segura e mostra uma voz autoral que transcende sua origem como criador de conteúdo no YouTube. Ele entende que o terror contemporâneo está na atmosfera e na tensão psicológica, não apenas na violência gráfica.
A trilha sonora de Rock Burwell é outro acerto: minimalista e dissonante, ela cria uma cacofonia que ecoa o caos mental do protagonista, sem nunca apelar para orquestrações grandiosas. O verdadeiro mérito de Barker é conseguir manter a audiência em estado de alerta permanente, transformando ações triviais em momentos de pura angústia.
Um Pesadelo Romântico que Fica na Pele
Mesmo com seus tropeços narrativos no desenvolvimento de personagens secundários e uma ou outra conveniência de roteiro, Obsessão é um feito e tanto para um diretor estreante. É um filme que fere onde mais dói: na idealização romântica que nos foi ensinada a vida inteira.
Barker entrega uma história de horror que funciona tanto como um entretenimento de gênero de primeira linha quanto como uma crítica ácida e necessária sobre a linha tênue entre amar e possuir. Prepare-se para sair do cinema com a sensação estranha de que o amor, quando não é compartilhado, pode ser a pior das maldições.
Nota IMDb: 8.2/10
O que você achou do review? Já Assistiu Obsessão (2025)? Compartilhe nos comentários!
