O reencontro mais aguardado do cinema de terror cômico se transforma em um velório onde só o público chora. Após 13 anos de hiato e com a promessa do retorno triunfante dos irmãos Wayans e de Anna Faris, a franquia entrega um filme que parece ter sido escrito pelo seu tio chato no Facebook: cheio de referências datadas, ataques a “cultura woke” que já nasceram velhos e uma preguiça estrutural gritante.
A direção de Michael Tiddes transforma o que deveria ser uma sátira afiada ao terror moderno em uma esquete do Saturday Night Live que os roteiristas jogaram no lixo por ser repetitivo. A sensação ao sair do cinema não é de ter visto uma paródia, mas de ter sido vítima de uma pegadinha de mau gosto.
Entre o Suor Frio e o Tédio: O Vazio Narrativo

O maior pecado de Todo Mundo em Pânico 6 não é ser ofensivo — afinal, essa sempre foi a proposta da franquia —, mas sim ser mortalmente sem graça. A tentativa de seguir a cartilha do “requel” (reboot + sequência) no estilo Pânico (2022) é tão preguiçosa que dói. A trama acompanha Cindy Campbell (Anna Faris) e seu grupo tentando proteger a nova geração de um novo assassino. Até aí, tudo dentro do esperado.
O problema é a execução:
- Virtudes: As virtudes são raríssimas e se concentram na coragem física do elenco em se submeter a situações grotescas. O ator Marlon Wayans, como o icônico Shorty, ainda consegue arrancar risadas genuínas com seu timing bobalhão, e a estreante Olivia Rose Keegan, interpretando a filha de Cindy, prova que entendeu o exercício de estilo melhor que os veteranos, imitando os maneirismos de Faris com uma energia refrescante.
- Defeitos: No entanto, os defeitos são uma avalanche. As piadas sobre pronomes e espaços seguros não dialogam com a irreverência dos anos 2000; elas soam como um velho reclamando que o mundo mudou. Um exemplo específico é a paródia de A Substância: o filme reduz a complexidade do longa a uma piada de peido e agulhadas, mostrando que os roteiristas leram a sinopse do filme no Wikipedia em vez de assisti-lo.
A produção tem aspecto de TV. A fotografia é chapada, iluminada como uma sitcom dos anos 90, e a direção de Tiddes carece de qualquer estilo. Ele simplesmente posiciona a câmera e espera que a piada funcione, o que raramente acontece.
Elenco de Luxo, Aproveitamento de Estágio

Se você esperava ver Anna Faris como Cindy Campbell retomando seu posto de rainha da comédia física, prepare-se para a decepção. Faris parece perdida, navegando por um script que não sabe o que fazer com a personagem mãe, reduzindo-a a olhares de desaprovação e tentativas frustradas de “humor maternal”.
Regina Hall como Brenda Meeks sofre o mesmo destino; sua personagem, antes um furacão de loucura verbal, agora está confinada a repetir bordões antigos como se estivesse num show de nostalgia forçada.
Do lado masculino, a coisa não melhora. Shawn Wayans (Ray) parece entediado, e a volta de Dave Sheridan como o Doofy — um dos momentos mais memoráveis do primeiro filme — é tratada com descaso. Ele aparece, faz uma careta, e desaparece. A sensação é de que os atores foram pagos por hora e estavam atrasados para outro compromisso.
A salvação da lavoura fica por conta de Marlon Wayans e de Chris Elliott (como o mordomo Hanson), que pelo menos tentam injetar caos na tela. Mas dois acertos não sustentam um filme de 95 minutos.
O Choque de Gerações: Quando a Paródia Vira Tiozão do Zap

Todo Mundo em Pânico 6 falha ao tentar equilibrar tradição vs. modernidade. O original funcionava porque tinha o dedo no pulso do que os jovens achavam engraçado no ano 2000. Hoje, o filme tenta satirizar o elevated horror e os legacy sequels, mas com a ferramenta errada.
O contexto temático aqui é a fossilização do humor. Ao tentar “bater nos dois lados”, o filme se torna um espólio arqueológico. As referências a TikTok e K-Pop são jogadas na tela com a mesma naturalidade de um avô tentando fazer dancinha, constrangedor e digno de pena.
A promessa de “cancelar a cultura do cancelamento” falha porque o filme não é corajoso; é covarde. Ele ataca alvos fáceis (sustos fáceis de filmes ruins, comportamentos exagerados de redes sociais) enquanto deveria estar mirando na indústria do entretenimento que o engoliu vivo. A nostalgia, que deveria ser um abraço caloroso, é na verdade um lembrete doloroso de como a comédia pastelão pode envelhecer mal quando não evolui.
Um Tiro no Pé da Sátira
Todo Mundo em Pânico 6 é a prova definitiva de que só jogar dinheiro e rostos conhecidos na tela não faz comédia. O filme se arrasta por 95 minutos (que parecem 3 horas) trocando a inteligência pela preguiça de apontar para a tela e gritar “Olha, é o Não! Não Olhe!”.
O ritmo é destruído por uma edição que não sabe quando cortar a piada, e a direção de Michael Tiddes não oferece nenhum fôlego visual. É uma das decepções mais garantidas do ano, um papel de parede de referências que não serve nem como ruído de fundo. Fica a tristeza de saber que a Cindy, Shorty e Brenda mereciam uma despedida muito mais digna do que esse velório sem graça.
Nota IMDb: 4.2/10
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