Prepare-se para voltar para Eternia, mas não espere o épico sério e sombrio que você imaginava. Travis Knight, o mesmo diretor de Bumblebee, faz algo inusitado e corajoso: ele pega o brinquedo mais brega e glorioso dos anos 80 e transforma em uma comédia de ação consciente de si mesma, onde o protagonista resolve conflitos intergalácticos com jargões de RH. É colorido, é barulhento e, ocasionalmente, uma bagunça gloriosa. Mas quando o crânio de Jared Leto aparece na tela, você esquece todos os defeitos e apenas vibra.
Elenco e Atuações: A Dicotomia entre o “Chad” do Escritório e o Mestre do Caos

O coração do filme é a estranha química entre dois mundos: o mundano e o extravagante.
- Nicholas Galitzine (Príncipe Adam/He-Man): Entrega exatamente o que o roteiro pede: um herói deslocado que passou 15 anos na Terra trabalhando em um escritório chato. Ele não é o guerreiro estoico; ele é o “filho do dono” atrapalhado que tenta mediar conflitos armados com uma planilha de Excel. Galitzine é carismático, mas fisicamente parece um cosplayer magro ao lado da imponência de Idris Elba.
- Idris Elba (Mentor/Duncan): Faz o possível para dar peso dramático a um homem partido pela culpa, mas parece claramente entediado em metade das cenas de luta.
- Camila Mendes (Teela): É a guerreira durona padrão; ela está afiada, mas o roteiro a negligencia ao não explorar sua origem como filha da Feiticeira (aqui uma digna Morena Baccarin).
- Alison Brie (Maligna/Evil-Lyn): A verdadeira surpresa negativa; visualmente fiel, mas parece perdida, sem a vilania magnética que o papel exige.
- Jared Leto (Esqueleto): Contudo, quando o crânio entra em campo, o jogo muda. É, sem sombra de dúvida, o ponto alto do longa e rouba a cena cada vez que aparece. Esqueça o Coringa polêmico; Leto entendeu o recado aqui. Ele é ameaçador, patético, inseguro e hilário na medida certa. A voz fanha e o sotaque inglês forçado são uma escolha genial que transforma cada fala do vilão em um petardo de humor ácido.
Virtudes e Defeitos da Narrativa e Produção: RH vs. Magia

Travis Knight comete um erro de principiante ao alongar a primeira metade do filme na Terra. A piada funciona uma vez: ver He-Man preocupado com feedbacks de desempenho e reuniões de equipe é engraçado. O problema é que a piada se estende por quase 40 minutos, fazendo o público desejar que ele ache a espada logo.
A produção tenta compensar com nostalgia pura. Ver personagens obscuros como Aríete (Jon Xue Zhang), Mekaneck (James Wilkinson) e até o Homem-Cabra (Hafþór Júlíus Björnsson) na tela gera gritos na plateia. É um deleite para os fãs, mas para o espectador comum, parece apenas uma lista de tarefas sendo riscada.
Visualmente, o filme é uma contradição. Knight insistiu em efeitos práticos, o que é louvável, mas os figurinos parecem saídos diretos de uma convenção de quadrinhos de 1995. A armadura de He-Man parece de plástico, e o Castelo de Grayskull, embora imponente, carece de peso. O grande trunfo narrativo é a decisão de não tentar explicar a maluquice. O filme abraça o fato de ser um “Flash Gordon” drogado com referências a Highlander e espadas mágicas.
Direção e Fotografia: A Estética do “Arco-Íris Explosivo”

Travis Knight orquestra o caos com competência, mas sem a sutileza de Kubo. A fotografia é excessivamente colorida e brilhante, como se o filme tivesse sido tingido em algodão-doce radioativo. As cenas de ação em Eternia são divertidas e inventivas (destaque para o uso do Spikor como projétil), mas as coreografias sofrem com cortes rápidos demais para esconder que Galitzine não é um lutador nato.
A trilha sonora abusa de hits dos anos 80 (The Cure, 4 Non Blondes), mas a referência visual mais curiosa é a obsessão do diretor por Highlander, com menções diretas e até uma participação especial metalinguística de Dolph Lundgren como um “filósofo” de academia.
Contexto Temático: Desconstruindo a Masculinidade com uma Espada

O filme tenta, com insistência, ser sobre a redefinição da força. O diretor já declarou que o Esqueleto é a “personificação da masculinidade tóxica”, enquanto He-Man vence pelo diálogo e pela empatia. A intenção é nobre, mas a execução é confusa. Adam passa o filme inteiro fugindo de brigas, mas no clímax, ele vence na base da porrada e dos músculos. O discurso de “força interior” fica perdido no meio da explosão de testosterona e nostalgia.
A verdadeira crítica social está no humor da Terra, satirizando o ambiente corporativo e a alienação adulta, algo que certamente fará as “crianças” de 40 e poucos anos rirem de nervoso enquanto lembram dos seus próprios cubículos.
Nostalgia em 35mm: O Grito Abafado da Geração X

E aqui está o coração do filme: a sessão de cinema parece uma reunião de ex-alunos. Quando o Pacato aparece (já corajoso, o que é uma heresia aceitável), quando a Espada do Poder brilha ou quando a Feiticeira se transforma na ave Zoar, os adultos de meia-idade na plateia vibram como se tivessem 10 anos novamente.
Knight acertou em cheio ao tratar o material com carinho, mas sem a pretensão de O Cavaleiro das Trevas. É uma carta de amor para quem colecionava os bonecos. Porém, essa mesma aposta no “tosco consciente” pode afastar quem queria uma fantasia épica séria. O saldo final é de uma sessão divertida, barulhenta e profundamente imperfeita.
Pelo Poder de Jared Leto, Eu Tenho a Salvação!
Mestres do Universo (2026) não é o filme heroico que os puristas queriam, nem a obra-prima de ação que o orçamento de US$ 200 milhões poderia sugerir. É, nas palavras críticas, um milagre menor e fragmentado. O roteiro é irregular, o protagonista é fisicamente questionável e a meta-ironia cansa.
Contudo, cada vez que Jared Leto abre a boca como Esqueleto, com aquela mistura de narcisismo, insegurança e humor negro, o filme se transforma em algo especial. É o tipo de longa que você sai do cinema reclamando do ritmo, mas imediatamente pesquisando quanto custa o ingresso para ver a sequência.
Nota IMDb: 6.8/10
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