O novo filme de Steven Spielberg, Dia D, chega aos cinemas com a promessa de ser o ápice de sua “trilogia alienígena” não oficial, mas entrega uma experiência que, infelizmente, fica muito aquém do esperado. É uma obra que se perde em sua própria ambição, resultando em um thriller conspiratório confuso que, no final, apenas confirma que até os maiores mestres do cinema podem tropeçar.
Uma Espiral de Conexões sem Sentido

O roteiro de David Koepp se esforça para construir um quebra-cabeça complexo, mas falha em criar uma estrutura coesa que justifique suas duas horas e vinte e cinco minutos de duração. A trama tenta unir duas narrativas principais: de um lado, o analista de cibersegurança Daniel Kellner (Josh O’Connor), que rouba documentos secretos sobre a presença alienígena na Terra; do outro, a meteorologista Margaret Fairchild (Emily Blunt), que começa a manifestar estranhos poderes telepáticos.
O problema é que a conexão entre essas duas histórias é forçada e pouco orgânica. Enquanto a crítica parece dividida, alguns a consideram uma “grande forma” de Spielberg e outros um “drama sci-fi irretocável”, a sensação para o espectador comum, especialmente aquele que espera um filme sobre o próprio “Dia D” da revelação, é de frustração.
A promessa do título é adiada por horas, enquanto acompanhamos uma longa e arrastada perseguição que beira o enfadonho. É como se o filme evitasse seu próprio clímax, prendendo o público em um ciclo repetitivo de “alguém tem algo importante e os bandidos estão atrás para pegá-lo”.
Emily Blunt é o Único Farol em Meio à Névoa

Se há um consenso entre as críticas, é a performance magnética de Emily Blunt. Ela é, de longe, o maior trunfo do filme, e sua atuação como Margaret Fairchild é descrita como “arrebatadora”, “visceral” e “definitiva” em sua carreira. Blunt carrega o filme nas costas com uma presença de tela inegável, conseguindo transmitir a confusão, o medo e a crescente estranheza de sua personagem de forma genuína. Ela é a única razão pela qual o espectador se mantém investido, mas nem mesmo seu talento consegue salvar o material problemático que a cerca.
Josh O’Connor, como Daniel, faz um trabalho sólido, mas seu personagem é ofuscado pela narrativa confusa e frequentemente parece um mero veículo para a trama, sem a profundidade que sua jornada exigiria. Colin Firth, no papel do vilão Noah Scanlon, parece desperdiçado em um antagonista genérico e sem carisma. O restante do elenco, incluindo Colman Domingo, não tem espaço para brilhar, com personagens que funcionam mais como peças de um tabuleiro do que como indivíduos com motivações próprias.
Temas e Produção: A Beleza que não Salva o Caos

Mesmo com todos os seus problemas, Dia D ainda ostenta a assinatura inconfundível de Spielberg. A fotografia de Janusz Kamiński é, como sempre, impecável, criando imagens que são um espetáculo à parte. A trilha sonora adiciona uma camada de emoção que o roteiro não consegue sustentar por conta própria. Tecnicamente, o filme é um primor.
O problema reside na mensagem. Spielberg sempre foi mestre em usar a ficção científica para falar sobre a humanidade. Em Dia D, ele tenta fazer o mesmo, abordando temas como a desinformação, a perda da empatia e a desconfiança institucional.
No entanto, a execução é tão desajeitada que o impacto pretendido se perde. A mensagem de esperança e compreensão que o diretor desejava transmitir, e que ele vê como o capítulo final de sua “trilogia” temática com Contatos Imediatos e E.T., é abafada por uma narrativa que não sabe o que quer ser: um suspense político, um drama sci-fi ou um épico de ação.
Um Vislumbre de Grandeza em uma Paisagem de Fracasso
Dia D é, na melhor das hipóteses, uma experiência frustrante. É o filme que prova que, para Spielberg, o fascínio pela ideia de um primeiro contato ainda existe, mas que a forma de contá-lo pode se perder em um mar de convenções de Hollywood. O filme se arrasta por duas horas e meia, com um terceiro ato que tenta ser transcendente, mas que muitos críticos descreveram como “ridículo” e “involuntariamente cômico” em sua tentativa de ser emocionante. A empolgação inicial de ver o retorno do diretor ao seu tema favorito rapidamente se transforma em uma pergunta: como um cineasta tão genial pôde errar tanto a mão?
É um filme que, para muitos, parece “20 anos atrasado”, uma relíquia de uma era pré-internet onde uma revelação alienígena ainda teria o poder de chocar. Em um mundo saturado de informações, a grande revelação de Dia D soa como um eco fraco de um tempo em que o desconhecido ainda era capaz de nos maravilhar. O filme é uma prova de que grande direção e atuações notáveis não podem compensar um roteiro que se perde no caminho.
Nota do IMDb: 6.7/10
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