Crítica | Treta (2ª temporada): Uma sátira de classe afiada com Oscar Isaac e Carey Mulligan

Doze episódios, um novo elenco de peso e a mesma receita de humor ácido e desconforto existencial. A segunda temporada de Treta troca o asfalto fervendo de Los Angeles pelo gramado impecável do Monte Vista Country Club, um santuário de milionários onde cada sorriso esconde uma dívida e cada aperto de mão, uma faca nas costas. Quando Ashley (Cailee Spaeny) e Austin (Charles Melton), um jovem casal de funcionários precarizados, testemunham e filmam uma briga brutal entre seus patrões Josh (Oscar Isaac) e Lindsay (Carey Mulligan), a série aciona um dominó de chantagens e manipulações. O que começa como um plano desesperado para conseguir um plano de saúde termina em espionagem corporativa, sangue e uma viagem surreal à Coreia do Sul. A temporada acerta ao mirar na guerra de classes, mas tropeça ao tentar equilibrar personagens demais numa estrutura que já não suporta tanto peso.

O Paraíso dos Ricos é o Inferno dos Outros

Cena da 2ª temporada de Treta

O maior trunfo desta temporada de Treta é, sem dúvida, o seu elenco. Oscar Isaac e Carey Mulligan entregam uma aula de timing dramático. Na cena em que Josh e Lindsay discutem sobre o cachorro desaparecido, os dois alternam entre a fúria assassina e a fragilidade de quem já não reconhece o rosto do outro lado da cama — e o fazem sem jamais cair no melodrama fácil. Cailee Spaeny, por sua vez, transforma Ashley numa “menina-problema” que transita da doçura ansiosa para uma frieza calculista. A cena em que ela simula uma dor nível 9 no hospital, para depois descobrir que aquilo não significa nada, é um resumo brutal de sua personagem: ela aprendeu a performar o sofrimento como moeda de troca.

Virtudes e Defeitos: O Elenco que Carrega o Piano e o Roteiro que Quer Tocar Sozinho

Cena da 2ª temporada de Treta

Se as atuações são o ponto alto, a narrativa é o calcanhar de Aquiles. A primeira temporada de Treta era uma espiral claustrofóbica centrada em duas pessoas. Aqui, Lee Sung Jin espalha a trama entre quatro protagonistas, mais o núcleo coreano de Youn Yuh-jung e Song Kang-ho. O resultado é uma sensação de dispersão. Arcos como o do Dr. Kim (Song Kang-ho) surgem com força, mas são subaproveitados; a chantagem inicial perde fôlego e dá lugar a reviravoltas que beiram o absurdo gratuito. A produção mantém o padrão estético elegante da A24, mas a fotografia, embora bonita, não tem a mesma personalidade suja e pulsante da primeira temporada. A direção troca o caos urbano pela frieza simétrica dos ambientes de luxo — uma escolha inteligente, mas que esfria a urgência dramática.

Casais em Colapso: Análise dos Personagens e do Elenco

Elenco da 2ª temporada de Treta

A dinâmica de classes é espelhada nos relacionamentos. Oscar Isaac interpreta Josh, o gerente do clube, um homem de 40 anos que finge pertencer à elite, mas que desvia dinheiro e trai virtualmente a esposa por puro tédio existencial. Isaac é mestre em mostrar a fragilidade sob a armadura da arrogância, especialmente quando Josh percebe que sua autoridade é uma miragem. Carey Mulligan é Lindsay, a esposa decoradora que sacrificou a carreira pelo casamento. Mulligan compõe uma mulher ácida e carente, cujo olhar vazio durante os jantares de gala diz mais do que qualquer monólogo. A química entre os dois é de uma violência silenciosa — eles são especialistas em se ferir com um simples suspiro.

Do outro lado do abismo social, Cailee Spaeny entrega Ashley como uma sobrevivente emocional: ela nunca terminou o ensino fundamental e enxerga o vídeo da briga como seu único bilhete para a segurança. Spaeny equilibra a manipulação com momentos de vulnerabilidade genuína, como quando admite que nunca recebeu um abraço dos pais. Charles Melton interpreta Austin, o personal trainer ingênuo que quer agradar a todos. Melton, excelente em May December, repete aqui o talento para mostrar um personagem que demora a perceber que está sendo usado. A cena em que ele descobre as mentiras de Ashley é devastadora, porque Melton nunca abandona a doçura do personagem, mesmo quando ele finalmente explode.

A cereja do bolo é Youn Yuh-jung como Chairwoman Park, a bilionária sul-coreana que compra o clube. A atriz vencedora do Oscar transforma cada olhar numa arma. Quando ela decide que Lindsay é “inútil” após um erro de decoração, a frieza é tão precisa que parece uma execução. Song Kang-ho como Dr. Kim, seu marido cirurgião com tremores nas mãos, é um acerto de escalação que o roteiro aproveita mal — mas cada aparição dele rouba a cena.

Tema e Contexto: Capitalismo, Chantagem e o Preço da Fachada

Cena da 2ª temporada de Treta

A grande sacada da temporada é mostrar que o dinheiro não resolve a solidão, mas potencializa a crueldade. Josh e Lindsay são ricos, mas vivem num casamento falido; Ashley e Austin são pobres, mas idealizam um amor que ainda não foi testado pelo tempo. O abismo geracional entre os millennials e a geração Z é explorado com sagacidade: os mais velhos já aceitaram a mediocridade como destino, os mais jovens ainda acreditam que um golpe de sorte pode salvá-los. A série também critica a banalização da chantagem emocional e o sistema de saúde americano, que transforma uma doença numa arma de barganha. Mas, ao tentar abraçar críticas demais — capitalismo, machismo, etarismo, corrupção —, Treta perde a precisão cirúrgica que fazia da primeira temporada um bisturi.

Direção e Fotografia

Cena da 2ª temporada de Treta

A direção opta por planos mais abertos e simétricos, contrastando com a câmera nervosa da primeira temporada. O country club é filmado como um aquário de vidro — todos os personagens estão expostos, mas ninguém os vê de verdade. A viagem à Coreia no episódio final injeta cores vibrantes e movimentos mais fluidos, quase como uma fuga da opressão americana. A trilha sonora, assinada por Finneas O’Connell, é elegante, mas carece dos momentos de ruído industrial que davam identidade à série.

Boas Intenções, Execução Irregular

Treta continua sendo uma das vozes mais originais da Netflix, mas esta segunda temporada prova que mais nem sempre é melhor. O elenco estelar sustenta um roteiro que se perde em suas próprias ambições, e a crítica social, embora afiada, dilui-se em meio a tramas paralelas. Ainda assim, é uma experiência recompensadora para quem gosta de humor negro e personagens moralmente cinzentos. Apenas não espere o soco no estômago da primeira temporada — aqui, o golpe é dado, mas com luva de pelica.

Nota IMDb: 7.2/10

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