Em Os Abandonados, a Netflix não oferece um western revisionista gentil, mas um caldeirão de violência, ambição e resistência fervendo na paisagem árida do Velho Oeste. Criada por Kurt Sutter, a mente por trás de Sons of Anarchy, a série de 2025 transplanta sua marca registrada de conflitos familiares intensos e moralidade cinzenta para o terreno fértil da expansão fronteiriça. A trama acompanha um grupo heterogêneo de famílias — imigrantes, foras da lei, deslocados — cujas terras são cobiçadas por uma empresa mineradora corrupta, encabeçada por uma magnata implacável. O que emerge não é apenas uma luta pela terra, mas um estudo visceral sobre a formação de uma nova tribo em um mundo onde a lei é fraca e a ganância é forte. A série aposta alto em seu elenco estelar e em temas de poder e pertencimento, criando uma narrativa que é, ao mesmo tempo, grandiosa em sua ambição e, por vezes, irregular em sua execução, resultando em um western robusto que honra as tradições do gênero enquanto tenta injetar uma dose moderna de protagonismo feminino.
Narrativa: A Virtude da Conflito e o Defeito da Profundidade
A maior virtude da narrativa de Os Abandonados é sua premissa carregada de conflito imediato. A série não perde tempo: desde os primeiros episódios, estabelece um cerco econômico e violento contra as famílias protagonistas, criando uma tensão narrativa constante. A estrutura é clássica: os “bons” (um grupo moralmente diverso) contra os “maus” (interesses capitalistas puros), mas Sutter complica essa dinâmica ao borrar essas linhas. Um exemplo específico é a maneira como a líder de uma das famílias, Fiona Nolan (Lena Headey), é forçada a realizar transações éticas cada vez mais duvidosas e a fazer pactos com figuras sombrias para proteger os seus. A força motriz é a sobrevivência a qualquer custo, um tema sempre eficaz.
No entanto, o defeito mais evidente é a profundidade desigual dedicada ao extenso elenco de personagens. Enquanto o núcleo da família Nolan e a antagonista Constance Van Ness (Gillian Anderson) recebem desenvolvimento, muitas das “famílias diversas” prometidas no roteiro, acabam funcionando mais como arquétipos (o imigrante irlandês, o ex-escravo) do que como indivíduos plenamente realizados. A série, em sua ânsia de ser um épico, peca por tentar abraçar muitas histórias paralelas, resultando em alguns subenredos que parecem corridos e emocionalmente rascunhados, especialmente na metade da temporada. A violência, embora esperada em um produto de Sutter, por vezes cruza a linha do gestual para o gratuito, interrompendo o fluxo dramático com choque em vez de substância.
Elenco e Atuações: Ferocidade Feminina no Comando
O pilar indiscutível da série é a atuação de seu duo feminino de elite, que carrega o peso dramático com presença de ferro.
Lena Headey como Fiona Nolan: Headey, longe de sua fria Cersei Lannister, aqui interpreta uma ferocidade maternal e terrestre. Sua Fiona é a espinha dorsal prática e implacável da comunidade. Headey brilha nos momentos silenciosos de cálculo e decisão, transmitindo mais com um olhar de determinação cansada do que com discursos. Sua química com os filhos é um alicerce emocional sólido.
Gillian Anderson como Constance Van Ness: Anderson é uma força da natureza antagônica. Sua Constance não é uma vilã que rosna; é uma magnata de sangue frio que vê terras e pessoas como ativos e passivos em uma planilha. A atriz empresta uma gravidade e uma inteligência cortante ao papel, evitando a caricatura. Seu conflito é ideológico e geracional, especialmente em relação ao filho (Lucas Till), criando a dinâmica familiar mais complexa e interessante da série.
Lucas Till como Garret Van Ness: Till segura bem o confronto com as veteranas, interpretando um jovem dividido entre a lealdade filial distorcida e um código de honra em formação. Seu arco de redenção e descoberta é previsível, mas executado com convicção.
O Elenco de Apoio: Figuras como o misterioso caçador de recompensas Roache (vivido por um Michiel Huisman) e a Ingênua Dahlia (interpretada por Diana Silvers) adicionam camadas ao mundo da série, mas, como citado, muitas vezes carecem de tempo de tela para que suas histórias ressoem plenamente.
Direção e Fotografia: A Poesia do Pó e do Sangue
Tecnicamente, Os Abandonados é uma produção de alto calibre. A fotografia é um personagem por si só, capturando a vastidão opressiva e a beleza austera da paisagem fronteiriça (filmada em locações no Canadá). A paleta de cores é dominada por tons terrosos de ocre, marrom e cinza, realçados pelo azul gelado das cenas noturnas e pelo vermelho vibrante da violência. A direção, particularmente nas sequências de ação, é clara e brutal, enfatizando o impacto físico e caótico dos confrontos, muito ao estilo dos westerns spaghettis.
A direção de arte constrói um mundo crível e vivido, das cabinas humildes dos colonos à opulência sóbria dos escritórios de Constance Van Ness. No entanto, há uma certa segurança estilística; a série não arrisca muito visualmente, contentando-se em aplicar uma estética premium a convenções bem conhecidas do gênero. A trilha sonora, uma mistura de temas épicos com elementos mais minimalistas e de cordas, serve bem à narrativa, mas raramente se destaca.
Contexto Temático: Poder, Moralidade e o Novo Manifest Destiny
Os Abandonados é profundamente preocupada com questões de poder e sua legitimação.
Propriedade vs. Direito: No cerne está o conflito entre a propriedade legal (da empresa mineradora, comprada por meio de influência) e o direito moral ou por ocupação (das famílias que trabalharam a terra). A série questiona quem realmente possui a fronteira.
A Reconfiguração da Família: A “família” aqui é uma construção escolhida, não apenas de sangue. A série explora como indivíduos marginalizados — imigrantes, ex-escravos, foras-da-lei — se unem para formar um novo clã, desafiando as estruturas sociais tradicionais. A liderança de Fiona Nolan simboliza essa reinvenção das hierarquias.
Manifest Destiny Corrompido: O conceito de Manifest Destiny é invertido. Não é sobre o expansionismo divino de uma nação, mas sobre o império pessoal de uma corporação disfarçada de progresso. A ganância privada substitui o suposto destino nacional, oferecendo uma crítica contundente ao capitalismo desenfreado.
Moralidade na Fronteira: A série não oferece heróis imaculados. Para combater um mal absoluto (a ganância corporativa), os protagonistas devem sujar as mãos, envolvendo-se em suborno, intimidação e assassinato. A pergunta central torna-se: quantas de suas próprias regras você pode quebrar para salvar seu modo de vida?
Western Sólido com Alma de Sutter
Os Abandonados não reinventa a roda do western, e talvez nem seja a obra-prima que Kurt Sutter almejava. É, contudo, uma série robusta, visceral e imensamente assistível, ancorada por performances magnéticas de Lena Headey e Gillian Anderson. Seus defeitos — uma trama por vezes sobrecarregada e desenvolvimento desigual de personagens — são em grande parte ofuscados por seus acertos: um conflito central cativante, uma atmosfera bem construída e um ritmo que raramente deixa a energia minguar. Para fãs do gênero western e dos dramas familiares intensos e morais complexos característicos de Sutter, Os Abandonados é uma jornada satisfatória e sangrenta pela fronteira onde se forjam novos legados.
Nota IMDb: 6.2/10
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