Em 1962, a pequena Derry, Maine, é um cartão postal da América perfeita. Meninas de vestido rodado, homens de uniforme impecável e a promessa do “American Dream”. Mas, como bem sabemos do cânone de Stephen King, sob esse verniz repousa uma podridão ancestral. IT: Bem-Vindos a Derry, a ambiciosa prequela da HBO desenvolvida por Andy e Barbara Muschietti, não se contenta em apenas rascar essa superfície. Ela a esfola, mergulha nas feridas expostas de uma sociedade doente e traça, com mão ora certeira ora titubeante, a linha que conecta os horrores sobrenaturais de Pennywise aos horrores perfeitamente humanos do racismo, da Guerra Fria e do abandono. A série é uma criatura de dualidades: majestosa em sua produção e atmosfera, mas às vezes claudicante em seu ritmo; emocionante em suas performances, mas ocasionalmente previsível em seus arcos narrativos. É um projeto que honra o legado do material original ao expandi-lo, mesmo que, para isso, precise navegar por águas narrativas já bem conhecidas.
Narrativa: O Peso da Expansão e a Delícia do Terror
A premissa é um convite irresistível para os fãs: Em 1962, a pequena Derry, Maine, é um cartão postal da América perfeita. Meninas de vestido rodado, homens de uniforme impecável e a promessa do “American Dream”. Mas, como bem sabemos do cânone de Stephen King, sob esse verniz repousa uma podridão ancestral. IT: Bem-Vindos a Derry, a ambiciosa prequela da HBO desenvolvida por Andy e Barbara Muschietti, não se contenta em apenas rascar essa superfície. Ela a esfola, mergulha nas feridas expostas de uma sociedade doente e traça, com mão ora certeira ora titubeante, a linha que conecta os horrores sobrenaturais de Pennywise aos horrores perfeitamente humanos do racismo, da Guerra Fria e do abandono. A série é uma criatura de dualidades: majestosa em sua produção e atmosfera, mas às vezes claudicante em seu ritmo; emocionante em suas performances, mas ocasionalmente previsível em seus arcos narrativos. É um projeto que honra o legado do material original ao expandi-lo, mesmo que, para isso, precise navegar por águas narrativas já bem conhecidas antes do Clube dos Perdedores, outra geração de crianças e um grupo de adultos confrontam a entidade maligna. A série tece dois fios principais. De um lado, a família Hanlon – o major Leroy (Jovan Adepo), sua esposa ativista Charlotte (Taylour Paige) e o filho Will (Blake Cameron James) – que se muda para a base aérea local, onde um projeto militar secreto liderado pelo General Shaw (James Remar) investiga “anomalias” que coincidem com terras indígenas sagradas. Do outro, um novo e tocante grupo de jovens outsiders, liderado pela resiliente Lilly (Clara Stack), que investiga o desaparecimento de um colega.
A virtude central da narrativa está na sua construção de mundo temática. A série é astuta ao usar o horror sobrenatural como lente para amplificar dramas sociais reais. O racismo sofrido por Leroy na base, a xenofobia enfrentada pelo cubano-americano Rich (Arian S. Cartaya) e a cruel exclusão social que atinge Lilly e Ronnie (Amanda Christine) não são pano de fundo; são o próprio tecido do terror. A maldade de Pennywise se alimenta e espelha a maldade humana, criando uma sensação de dread que vai além dos jump scares.
No entanto, essa ambição tem um custo. A estrutura, que intercala as histórias dos adultos e das crianças, sofre de um ritmo irregular. Longos períodos de construção de personagem e atmosfera, embora valiosos, às vezes deixam a trama circular, especialmente nos episódios centrais, criando a sensação de que a série estica um filme em potencial para preencher oito episódios. Algumas reviravoltas, principalmente ligadas à conspiração militar, podem soar familiares aos aficionados por ficção científica vintage.
Ainda assim, quando a série decide atacar, ela é devastadora. Cenas como a aparição inicial de Pennywise em um carro aparentemente normal, ou uma sequência de pesadelo em um cinema, são aulas de tensão e horror visceral, mostrando que a equipe por trás dos filmes ainda sabe craftar sustos magistrais. Um dos momentos mais inteligentes é o retorno ilusório do garoto Matty nos esgotos, uma ideia originalmente descartada do filme IT: Capítulo Dois que encontra seu lugar perfeito aqui, funcionando como uma armadilha psicológica terrível e eficaz.
Elenco e Atuações: A Alma Humana da História
É no elenco, particularmente nos mais jovens, que IT: Bem-Vindos a Derry encontra seu coração mais verdadeiro e assustador. Clara Stack, como Lilly, é a descoberta da série. Ela transmite uma dor silenciosa, uma resiliência trêmula e uma coragem que não apaga o medo, tornando-se uma protagonista irresistível. Jovan Adepo impõe respeito e vulnerabilidade como Leroy, um homem dividido entre o dever, a família e a luta contra um preconceito institucionalizado. Taylour Paige traz uma ferocidade necessária como Charlotte, cujos instintos investigativos e proteção maternal são um motor narrativo crucial.
Entre os veteranos, Chris Chalk rouba a cena como Dick Hallorann. Sua performance acrescenta camadas de tragédia e cansaço psíquico ao personagem, longe de ser um simples “guia místico”. Chalk constrói a origem do icônico cozinheiro telepata de O Iluminado com uma densidade dramática que se torna o coração moral da série. Bill Skarsgård, retornando como Pennywise/Bob Gray, consegue o feito de ainda ser aterrador, mas aqui explora mais a semente da maldade humana por trás do palhaço. Sua atuação é utilizada com parcimônia, mas sua presença é onipresente, uma força da natureza que congela a tela sempre que aparece.
O elenco de apoio é sólido, com James Remar emanando autoridade sinistra como o General Shaw e Madeleine Stowe entregando uma performance perturbadora como Ingrid Kersh, a filha humana de Bob Gray, cuja obsessão doentia pelo pai a transforma em uma cúmplice ativa do horror.
Direção e Produção: Imersão Total nos Anos 60 (Com Algumas Manchas Digitais)
Tecnicamente, IT: Bem-Vindos a Derry é um triunfo da atmosfera. A direção de arte e a fotografia são impecáveis, mergulhando o espectador no início dos anos 60 com uma riqueza de detalhes que vai dos automóveis às embalagens de supermercado. Derry é uma personagem por si só: suas ruas limpas e iluminadas pelo sol contrastam de forma dolorosa com a escuridão dos porões, dos bosques e, é claro, dos esgotos. A trilha sonora, que mistura oldies perturbadoramente alegres com composições originais sombrias de Benjamin Wallfisch, é um personagem fundamental. A abertura, com “A Smile and a Ribbon” de Patience and Prudence, é um hino ao horror sussurrado, perfeito para a série.
No entanto, a série repete um vício da franquia cinematográfica: a dependência excessiva de efeitos visuais digitais (CGI) para criar sustos. Cenas que constroem uma tensão magistral, como uma invocação em um cemitério, muitas vezes se desfazem quando revelam fantasmas ou criaturas com uma estética artificial que quebra a imersão. O terceiro episódio é particularmente culpado, com um “desfile de fantasmas digitais” que lembra mais Os Caça-Fantasmas do que o terror psicológico prometido. Felizmente, a série evolui nesse aspecto, com os efeitos se tornando mais orgânicos e aterrorizantes nos episódios finais, especialmente nas transfigurações grotescas da Coisa.
Contexto Temático: O Verdadeiro Monstro Mora ao Lado
IT: Bem-Vindos a Derry brilha em sua exploração temática. A série é, acima de tudo, sobre o fracasso dos sistemas. O sistema militar, obcecado com a Guerra Fria, viola terras sagradas e ignora o mal à sua porta. O sistema social, regido pelo racismo e pela conformidade, exclui e oprime os vulneráveis. O sistema familiar, muitas vezes, falha em proteger suas crianças. Pennywise é a encarnação supernatural desse colapso sistêmico.
Esse ponto atinge seu ápice no poderoso episódio que retrata o incêndio do “Black Spot”, um clube frequentado por soldados negros. A série não teme em mostrar que o verdadeiro horror daquela noite não foi a participação de Pennywise, mas a violência humana, o linchamento racial e a conivência das autoridades. É um episódio devastador que, no entanto, recebe críticas por diluir sua crítica social ao sobrepor a ela a morte chocante de um personagem jovem, ofuscando a tragédia coletiva em prol do choque individual.
A série também faz uma reflexão potente sobre memória e trauma. Lilly carrega o trauma da perda do pai, Hallorann é atormentado por seus dons, e a própria cidade de Derry parece sufocar suas próprias histórias de horror em um pacto de silêncio. A luta das crianças não é apenas para sobreviver, mas para serem ouvidas e acreditadas em um mundo adulto que prefere virar as costas.
O Verdadeiro Horror Está na Superfície
IT: Bem-Vindos a Derry não é uma obra perfeita. Sua narrativa às vezes padece do mal da expansão excessiva típica das séries de streaming, e nem todas as suas apostas temáticas se concretizam com igual força. No entanto, é uma adição mais do que digna ao universo de Stephen King. Ela consegue a proeza de ser uma prequela que não apenas serve os fãs com easter eggs (como as deliciosas origens das famílias Hanlon, Uris e Tozier), mas que expande significativamente a mitologia, aprofundando-se nos temas sociais que sempre estiveram no cerne da história original.
É uma série que entende que o verdadeiro horror não está apenas no que emerge dos esgotos, mas no que já estava plantado, há muito tempo, na superfície aparentemente perfeita da América. Assustadora, comovente e incômoda, é uma viagem a Derry que vale a pena fazer, mesmo com seus arranhões visíveis.
Nota IMDb: 7.8/10
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