Quando Ghosts estreou em 2021, poucos imaginavam que esta adaptação americana da série britânica homônima se tornaria um fenômeno global de audiência. Em 2026, a produção da CBS não apenas celebra sua quinta temporada no ar como também domina as paradas do streaming internacional, conquistando corações com uma fórmula que equilibra humor absurdo, calor humano e reflexões existenciais disfarçadas de comédia pastelão.
A premissa é deliciosamente simples: Samantha (Rose McIver) e Jay (Utkarsh Ambudkar) herdam uma mansão histórica e decidem transformá-la em pousada, mas descobrem que o imóvel abriga um grupo eclético de fantasmas de diferentes épocas. Após um acidente que a deixa clinicamente morta por três minutos, Sam desperta com a capacidade de ver e ouvir esses residentes etéreos – uma dádiva questionável que transforma a reforma do casarão numa comédia de erros intergeracional.
Entre o Riso e o Afeto: Os Acertos (E Escorregadas) da Mansão Woodstone
A grande virtude de Ghosts reside na sua capacidade de construir comédia sem jamais recorrer ao cinismo. Diferentemente de tantas sitcoms contemporâneas que confundem sarcasmo com inteligência, a série aposta num humor genuinamente afetuoso que abraça tanto seus personagens vivos quanto os mortos. O episódio em que Sam decide se vingar dos fantasmas após uma pegadinha no Dia da Mentira exemplifica essa abordagem: ao tentar explorar as fraquezas de cada espírito – usando o conhecimento pessoal como arma – ela acaba revelando vulnerabilidades que aprofundam os laços entre eles. É uma sequência que poderia ser meramente caótica, mas se transforma numa celebração das idiossincrasias que tornam cada fantasma único.
A produção acerta ainda ao permitir que o casal protagonista enfrente dificuldades financeiras reais. Numa paisagem televisiva onde personagens vivem em imóveis imaculados independentemente da profissão, ver Sam e Jay apertando o orçamento para manter a pousada funcionando adiciona uma camada de identificação rara. O desconforto de Jay ao não poder enxergar os fantasmas – e sua genuína alegria quando finalmente consegue interagir com eles através de jogos de tabuleiro e sessões de RPG – torna tangível a solidão de ser o único “excluído” daquela dinâmica familiar insólita.
Por outro lado, a série ocasionalmente tropeça no tratamento de seus personagens secundários vivos. Enquanto os fantasmas recebem arcos cuidadosamente desenvolvidos ao longo das temporadas, figuras como a irmã de Jay, Bela (Punam Patel), surgem em momentos convenientes para resolver tramas específicas, funcionando mais como ferramentas narrativas do que como pessoas com agência própria. A quinta temporada promete corrigir parcialmente isso ao dar a Bela uma presença mais forte nos episódios de 2026, mas o desequilíbrio persiste como uma das poucas manchas na construção do universo da série.
O Panteão de Woodstone: Personagens e Atuações
Se há um mérito indiscutível em Ghosts, é o elenco de fantasmas que Rebecca Wisocky lidera com mão de ferro (e espartilho apertado). Sua Hetty Woodstone, a aristocrata vitoriana que se enforcou acidentalmente com um fio de telefone para evitar a prisão do marido, equilibra arrogância de classe com momentos de vulnerabilidade comovente. Wisocky domina cada cena com dicção impecável e olhares que atravessam séculos de repressão – sua descoberta tardia da herança irlandesa e o subsequente desenvolvimento do poder de interagir com os vivos no Dia de São Patrício renderam alguns dos momentos mais genuinamente emocionantes da série.
Asher Grodman entrega como Trevor Lefkowitz, o investidor de Wall Street dos anos 2000 que morreu sem calças após overdose acidental. Grodman transforma o que poderia ser uma caricatura grotesca num retrato surpreendentemente doce de um homem que descobriu tarde demais o valor da generosidade – afinal, ele perdeu as calças justamente por emprestá-las a um amigo. Sua limitada capacidade de interagir com o mundo físico através de apenas um dedo indicador gera piadas recorrentes que nunca perdem a graça.
Richie Moriarty merece menção especial como Pete Martino, o líder escoteiro morto por uma flechada acidental em 1985. Moriarty infunde tanta sinceridade no personagem que suas piadas sobre Dungeons & Dragons e improvisação teatral jamais soam forçadas. Quando Pete descobre na quarta temporada que pode deixar a propriedade – ainda que temporariamente – sua alegria contagiante e o subsequente flerte com Alberta (Danielle Pinnock) adicionam uma dimensão agridoce à narrativa: até os mortos podem encontrar novos começos.
Román Zaragoza entrega Sasappis com sabedoria milenar e timing cômico contemporâneo. O único fantasma nativo americano do grupo, Sass morreu em 1513 e “presta atenção” suficiente ao mundo moderno para falar como um contemporâneo, criando um contraste delicioso com os espíritos de épocas mais recentes. A quinta temporada promete finalmente explorar o mistério de sua morte – ou não, já que os showrunners mantêm cautela sobre revelar esse segredo tão guardado.
Devan Chandler Long como Thorfinn equilibra perfeitamente a agressividade viking com doçura de urso domesticado, enquanto Danielle Pinnock finalmente encontra em Pete o interesse romântico que sua Alberta merece. Brandon Scott Jones interpreta o Capitão Isaac Higgintoot com a mistura ideal de orgulho ferido e insegurança enrustida, seu desdém por Alexander Hamilton rendendo algumas das rivalidades mais divertidas da televisão recente.
Entre o Passado e o Pertencimento: O Verdadeiro Conflito dos Espíritos
No centro de Ghosts pulsa um debate silencioso sobre pertencimento e transformação. A mansão Woodstone funciona menos como cenário e mais como purgatório particular de cada alma ali confinada – não por acaso, todas morreram na propriedade e ali permanecem décadas ou séculos depois, observando o mundo seguir sem elas.
Cada fantasma carrega essa ferida de maneiras distintas. Hetty Woodstone não defende valores vitorianos por teimosia aristocrática, mas porque foram as únicas certezas que lhe restaram após a morte. Isaac Higgintoot enfrenta batalha semelhante em escala mais íntima. Oficial revolucionário reprimido, sua homossexualidade permaneceu adormecida durante duzentos anos. Seu desdém por Hamilton revela menos rivalidade histórica e mais a dor de ter vivido à sombra de figuras que puderam ser quem eram enquanto ele permaneceu invisível.
A quinta temporada promete aprofundar essa reflexão ao introduzir “os Outros”, entidades sombrias mencionadas pela puritana Patience ainda na terceira temporada. Mais do que antagonistas sobrenaturais, esses novos fantasmas representam o medo de que nem mesmo a morte garanta um lugar seguro.
Nesse sentido, Ghosts constrói uma meditação delicada sobre deslocamento e memória. Sam e Jay, ao reformarem a pousada, funcionam como ponte entre mundos, lembrando aos mortos que ainda podem ser vistos, ouvidos e, principalmente, amados. A série sugere que pertencimento não é questão de época ou lugar, mas de reconhecimento.
Direção e Fotografia: A Arquitetura da Saudade
A direção de Christine Gernon e equipe aproveita ao máximo a locação, transformando a mansão Woodstone num personagem por direito próprio. A fotografia privilegia tons quentes mesmo nas cenas noturnas, sugerindo que a casa – apesar de assombrada – é menos um local de terror e mais um refúgio para almas perdidas. Os efeitos visuais, discretos mas eficazes, concentram-se nos poderes específicos de cada fantasma, servindo apenas para sublinhar piadas ou momentos de caracterização.
Conclusão: O Refúgio dos Espíritos Esquecidos
Ghosts prova que é possível fazer comédia inteligente sem sacrificar o calor humano. Seus defeitos – personagens vivos secundários subdesenvolvidos, ocasional dependência de fórmulas testadas – desaparecem diante do carinho genuíno que a série dedica a cada um de seus fantasmas. Ao nos convidar para dentro da mansão Woodstone, a produção nos lembra que todos carregamos nossos próprios fantasmas – e que talvez, apenas talvez, aprender a rir deles seja o primeiro passo para finalmente seguir em frente.
Nota IMDb: 8.0/10
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