A série revive o universo de Spartacus com um protagonista vilanesco, violência estilizada e uma premissa alternativa que divide os fãs, mas entrega entretenimento cru e sem remorso. Treze anos após o término da série original, Spartacus: House of Ashur retorna às arenas de Capua não com um herói, mas com um dos antagonistas mais desprezíveis da franquia. Esta sequência em formato de what if pergunta: e se Ashur, o traiçoeiro sírio interpretado por Nick E. Tarabay, não tivesse morrido no Monte Vesúvio? A resposta é uma mistura de nostalgia, violência hiperbólica e uma narrativa de poder que aceita suas próprias contradições para oferecer um espetáculo cheio de sangue e ambição.
O Retorno do Rato: Ashur no Comando
A premissa de Spartacus: House of Ashur é estabelecida com uma licença poética digna da mitologia: no Submundo, Lucretia (Lucy Lawless) concede a Ashur uma segunda chance, reescrevendo o destino para que ele seja o herói que matou Spartacus e, como recompensa, recebe o ludus de Batiatus. Ele acorda não como escravo, mas como Dominus da recém-nomeada Casa de Ashur. Este gancho narrativo, embora forçado para alguns, serve como um pacto direto com o público: esqueçam o realismo histórico e embarquem numa fábula sobre oportunismo. A série abraça seu status de spin-off alternativo, focando não na luta pela liberdade, mas na luta desesperada por status e respeito dentro de um sistema corrupto que nunca o aceitará completamente por ser um ex-escravo e um “sírio”.
A narrativa encontra seu ritmo ao longo dos episódios. Os primeiros capítulos dedicam-se a estabelecer as peças no tabuleiro: Ashur tentando conseguir lutas na arena principal, a tensão com rivais como Proculus (Simon Arblaster) e a relação com a elite local, que o despreza. O engano só ganha verdadeira tração e profundidade emocional por volta do quinto episódio, com a chegada de figuras como um Júlio César narcisista (Jackson Gallagher), que servem como antagonistas catalisadores perfeitos.
Elenco e Atuações: Carne, Sangue e Alma
O sucesso da série repousa sobre os ombros de um elenco que compreende perfeitamente o tom operístico e exagerado do universo Spartacus.
Nick E. Tarabay como Ashur: Tarabay recaptura toda a astúcia, sarcasmo e insegurança do personagem, mas com uma nova camada de paranoia e ambição desmedida. Seu Ashur é um homem que, mesmo no topo, se sabe um impostor, e sua performance transita bem entre a crueldade calculista e raros lampejos de algo que se assemelha a vulnerabilidade.
Graham McTavish como Korris: Como o Doctore (treinador) da casa, McTavish é a âncora moral e física. Sua presença é imponente e seu arco é um dos mais emocionantes, envolvendo uma relação inesperada e terna com o rival Opiter (Arlo Gibson), que termina em tragédia e acende um desejo de vingança frio e metódico.
Tenika Davis como Achillia: Davis traz ferocidade física e profundidade emocional à guerreira que Ashur pretende transformar na primeira grande gladiadora de Capua. Sua jornada de resistência à aceitação é crível, e a atriz vende tanto a destreza marcial quanto o fardo emocional de ser um símbolo contra sua vontade.
Claudia Black como Cossutia: Black é deliciosamente perversa como a nobre romana que vê Ashur como uma mancha em sua sociedade. Seu desdém gelado e manipulação política são um contraponto perfeito à agressividade mais direta dos homens da arena.
O elenco de apoio também é sólido, com destaque para a lealdade silenciosa de Hilara (Jamaica Vaughan) e para os Irmãos Ferox, um trio de gladiadores anões liderados por Satyrus (Leigh Gill), que adicionam uma dinâmica única e brutal aos combates.
Direção e Fotografia: Um Banquete Visual de Excesso
A série mantém fielmente a identidade visual da franquia, elevando-a com uma produção mais polida. A fotografia é hiper-saturada, com contrastes agressivos que realçam o sangue escarlate contra a pedra bege e os bronzes dourados. A violência é coreografada como uma dança de carnificina estilizada, com câmera lenta, splatters exagerados e mortes criativamente brutais que são uma marca registrada.
Os sets e figurinos recriam um mundo antigo fantástico e decadente, mais próximo de um graphic novel vivo do que de uma reconstituição histórica. As cenas de sexo e nudidade permanecem abundantes e explícitas, tratadas com a mesma falta de cerimônia que os combates, embora a série também explore relacionamentos com mais nuance.
Temas e Contexto: Poder, Preconceito e Vingança
Spartacus: House of Ashur troca o tema épico da libertação por um estudo mais íntimo e sórdido do poder.
A Luta pelo Status: Ashur não busca derrubar Roma; ele quer ser aceito por ela. A série explora o preconceito de classe e origem em uma sociedade rigidamente estratificada.
Moralidade em Tons de Cinza: Não há heróis puros aqui. Ashur é um oportunista que maltrata seus próprios escravos. Os nobres romanos são venais e cruéis.
Tradição vs. Subversão: A introdução de Achillia como gladiatrix é o cerne deste conflito. Ela representa a modernidade que ameaça as tradições da arena, gerando rejeição dos gladiadores e da elite.
Virtudes e Defeitos: Uma Espada de Dois Gumes
Virtudes:
Fidelidade ao Espírito Original: Entrega exatamente o que os fãs esperam: ação ultraviolenta, erotismo e diálogos estilizados.
Elenco Comprometido: Atuações fortes, especialmente de Tarabay e McTavish, que dão peso emocional aos seus personagens.
Defeitos:
Premissa Forçada: A ressurreição de Ashur via deus ex machina pode ser um obstáculo inicial para muitos.
Ritmo Irregular: A narrativa demora a engrenar nos primeiros episódios.
Um Espetáculo que Sabe o Que É
Spartacus: House of Ashur não é uma obra-prima do drama histórico, nem pretende ser. É um spin-off que entende perfeitamente seu nicho: um banquete de excessos para quem ansiou pelo retorno do estilo único da franquia. A série brilha quando abraça sua natureza de pulp inteligente, com atuações carismáticas e uma direção visual arrojada.
Nota do IMDb: 7.5/10
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