A Netflix apostou em uma joia menos conhecida de Agatha Christie, mas a minissérie Os Sete Relógios de Agatha Christie entrega mais perguntas do que respostas. Com um elenco estelar e a promessa de um mistério intricado nos anos 1920, a produção de três episódios acaba sendo um relógio bonito, porém com os ponteiros travados. A trama segue Lady Eileen “Bundle” Brent (Mia McKenna-Bruce), uma jovem da alta sociedade que investiga a morte misteriosa de um convidado após uma festa em sua mansão. O que poderia ser um thriller elegante e cheio de reviravoltas se perde em um ritmo arrastado, personagens subdesenvolvidos e uma falta gritante da centelha investigativa que consagrou a Rainha do Crime.
Um Mistério que Não Engrena: Narrativa e Ritmo
A premissa de Os Sete Relógios de Agatha Christie é clássica da autora: uma brincadeira com oito despertadores em um quarto termina em assassinato, e sete relógios são deixados como pista macabra. A adaptação, no entanto, parece não saber que horas são. O roteiro de Chris Chibnall (Broadchurch) tenta injetar um tom mais aventureiro e juvenil do livro original, mas falha em construir tensão ou suspense meticuloso. Os três episódios se arrastam com cenas excessivamente longas e diálogos que pouco avançam a trama. A revelação final, que altera significativamente o vilão do romance, trocando o pai de Bundle por sua mãe, Lady Caterham (Helena Bonham Carter), é mais um plot twist forçado do que uma conclusão satisfatória. A justificativa criativa – explorar o luto e o conflito geracional no pós-Primeira Guerra – é nobre, mas sua execução na tela parece desconectada do mistério central, deixando a sensação de que a história foi “esticada além do necessário”.
Elenco Estelar, Personagens Subutilizados
O maior desperdício da série está em seu talentoso elenco, que luta contra personagens unidimensionais. Mia McKenna-Bruce como Bundle Brent cumpre o papel com competência, mas falta a ela o carisma vibrante e a sagacidade afiada que definem a protagonista no livro. Bundle na tela é mais uma espectadora reativa do que uma investigadora perspicaz. Helena Bonham Carter, como a sombria Lady Caterham, tem momentos de intensidade, especialmente no confronto claustrofóbico com a filha dentro de um trem. No entanto, a personagem, uma criação da adaptação, carece de profundidade e motivação convincente além de ser um dispositivo narrativo. Martin Freeman interpreta o superintendente Battle com a sobriedade habitual, mas o roteiro lhe dá pouco mais do que falas expositivas e um papel surpreendentemente secundário na resolução do caso.
O verdadeiro destaque das atuações fica com Edward Bluemel como Jimmy Thesiger, o amigo charmoso e um tanto irresponsável de Bundle. Bluemel injeta energia e um toque de humor leve que alivia temporariamente a atmosfera pesada. Figuras secundárias, como Sir Oswald Coote (Mark Lewis Jones) e George Lomax (Alex Macqueen), são meros figurantes, sem qualquer arco ou desenvolvimento. É um elenco capaz de muito mais, preso em um texto que não os desafia.
Produção Visual: Elegância sem Alma
Visualmente, a série é uma mistura de beleza técnica e escolhas questionáveis. Os figurinos de Amy Roberts e os cenários de época são impecáveis e transportam o espectador para os anos 1920. Contudo, a fotografia de Luke Bryant é frequentemente plana e excessivamente dependente de uma paleta de cores bege e amarelada, que mais evoca monotonia do que mistério. O uso perceptível de chroma key em algumas cenas, especialmente nas tomadas externas que deveriam mostrar a paisagem espanhola de Ronda, quebra a imersão e dá um ar artificial à produção. A direção de Chris Sweeney é funcional, mas falta estilo e ritmo. As cenas de investigação são estáticas, e o clímax não consegue gerar a emoção necessária. A trilha sonora de Anne Nikitin passa despercebida, sem conseguir elevar momentos chave.
Temática: O Peso do Passado e o Vazio do Presente
Onde a série mais promete e menos entrega é em sua ambição temática. Chris Chibnall afirmou que queria explorar as diferentes gerações vivendo “sob a sombra do pós-guerra e da pandemia de gripe espanhola”. Lady Caterham representaria a geração mais velha, paralisada pela dor e pela perda, enquanto Bundle personificaria o espírito jovem e despreocupado dos anos 1920. Esse conflito entre tradição (representada pelo luto e por segredos familiares) e modernidade (a ânsia de Bundle por ação e independência) é um pano de fundo rico. Infelizmente, ele não é tecido de forma orgânica na trama criminal. A sociedade secreta “Seven Dials” e seu plano de roubo de um metal especial soam como um subplot de espionagem genérico, desconectado do drama pessoal que se pretendia contar. A moralidade nebulosa – onde a vilã age por trauma e um detetive que pode ser parte da conspiração – é um conceito interessante, mas explorado de forma superficial.
Um Relógio que Precisa de Corda
Os Sete Relógios de Agatha Christie é a prova de que um grande nome no cartaz e uma produção elegante não garantem uma adaptação bem-sucedida. A série peca onde mais importa: em criar um mistério envolvente e personagens com os quais possamos nos importar. É uma experiência visualmente competente, porém emocionalmente distante, que parece ter medo de abraçar totalmente o humor leve ou a escuridão psicológica. Para fãs dedicados de Agatha Christie, será uma curiosidade frustrante. Para o espectador casual em busca de um bom whodunit, soa como um relógio parado em um catálogo repleto de opções mais vitais. A Netflix acertou ao buscar uma obra menos óbvia, mas errou ao não dar a ela o timing e a profundidade necessários.
Nota do IMDb: 6.2/10
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