Crítica: Socorro! (2026) – O novo suspense de Sam Raimi com Rachel McAdams vale a pena?

Sam Raimi, o mestre que nos deu a trilogia Homem-Aranha e o terror alucinógeno de Uma Noite Alucinante, retorna às suas raízes com uma mistura eletrizante de suspense, comédia ácida e horror psicológico. Em Socorro! (Send Help), ele nos apresenta uma premissa enganosamente simples: dois colegas de trabalho, os únicos sobreviventes de um acidente de avião, lutam para sobreviver em uma ilha deserta. Mas, como era de se esperar do diretor, o inferno, assim como o paraíso, está nos detalhes. O que temos aqui é um jogo de gato e rato corporativo que transcende o físico e se instala na mente, um duelo de vontades que prova que, às vezes, a pior das selvas é a hierarquia do escritório.

Virtudes e Defeitos: Uma Montanha-Russa de Emoções (e Sangue)

Cena do Filme Socorro!

Se há uma virtude inegável em Socorro!, é a sua capacidade de subverter expectativas. O filme começa quase como uma sátira corporativa, apresentando o ambiente tóxico de trabalho com uma linguagem visual quase quadrada e burocrática. A transformação ocorre quando a areia da praia entra em cena. A fotografia de Bill Pope, que já havia trabalhado com Raimi em Homem-Aranha 2 e 3, abandona os tons frios e fluorescentes para abraçar uma paleta de cores quentes, sujas e ensolaradas que contrasta brutalmente com a escuridão que emerge na psique dos personagens.

A grande sacada do roteiro de Damian Shannon e Mark Swift é a inversão de poder. Bradley, o chefe arrogante e herdeiro incompetente, lesiona a perna no impacto. Linda, a funcionária humilhada e leitora ávida de manuais de sobrevivência, se torna a figura dominante. A narrativa brilha ao explorar essa dinâmica com um humor negro e desconfortável. Linda não é uma heroína tradicional; há um prazer perverso em vê-la usando a sobrevivência como uma ferramenta de vingança passivo-agressiva. A cena em que ela “ensina” Bradley a conseguir água da chuva enquanto o observa com um sorriso contido é um exemplo perfeito da direção de Raimi, que equilibra o patético e o ameaçador.

No entanto, o filme não é isento de defeitos. O terceiro ato, que o próprio O’Brien descreveu como “completamente fora dos trilhos”, pode ser um ponto de ruptura para alguns espectadores. Quando elementos do mundo exterior finalmente chegam à ilha, o drama de sobrevivência se transforma em algo próximo de um “slasher” sanguinário e caótico. A transição, embora excitante, é um pouco abrupta e pode deixar quem estava apreciando o duelo psicológico inicial um tanto desnorteado. A decisão de Linda diante da oportunidade de resgate é o ponto de virada que solidifica seu arco de personagem, mas a forma como isso se desenrola pode dividir opiniões.

O Elenco e Suas Atuações: Um Duelo de Gigantes

Cena do Filme Socorro!

Rachel McAdams como Linda Liddle é uma revelação dentro de uma carreira já brilhante. Ela interpreta Linda com uma camada de complexidade que vai muito além da “funcionária injustiçada”. Inicialmente, vemos a fragilidade e a ansiedade de alguém que tentou jogar o jogo corporativo pelas regras. Na ilha, McAdams permite que vejamos as engrenagens da mente de Linda girando: cada olhar para Bradley é um cálculo, cada gesto de ajuda é uma moeda de troca emocional. Ela transita da vulnerabilidade para uma frieza calculista com uma naturalidade assustadora, lembrando seus melhores momentos dramáticos, mas com um toque de malícia que é puro Raimi.

Dylan O’Brien como Bradley Preston tem a tarefa mais difícil: tornar minimamente simpático um personagem que é, por definição, um parasita incompetente e mimado. O’Brien se sai bem ao dosar o carisma natural com uma camada de fragilidade genuína. Quando Bradley está indefeso, com a perna imobilizada, dependendo de Linda para tudo, vemos o “menino” assustado por trás do CEO. Sua atuação física é notável, transmitindo a dor e a impotência de forma visceral. No entanto, em alguns momentos, o roteiro o coloca em um papel de alívio cômico quase pastelão, o que contrasta um pouco com a seriedade do terror psicológico que o cerca.

Vale destacar também a participação de Bruce Campbell, que aparece em fotografias no início do filme como o falecido pai de Bradley, o fundador da empresa que realmente acreditava no potencial de Linda. É um aceno carinhoso aos fãs de Raimi, uma conexão simbólica com o passado que retorna para assombrar o presente. O elenco de apoio, composto por Dennis Haysbert, Chris Pang, Edyll Ismail, Xavier Samuel e a própria Emma Raimi, cumpre bem seu papel, principalmente nas sequências de flashback, servindo como lembretes do mundo “civilizado” que os dois deixaram para trás e para o qual talvez não queiram mais voltar.

Direção e Fotografia: A Assinatura de Um Mestre

Cena do Filme Socorro!

Assistir a Socorro! é como rever um velho amigo que ainda tem muitos truques novos na manga. Sam Raimi imprime sua assinatura em cada frame. A câmera subjetiva, as tomadas em ângulos holandeses (inclinados) que sugerem desconforto e a edição frenética de Bob Murawski, que já trabalhava com Raimi desde Arraste-me para o Inferno, criam uma energia nervosa e imprevisível.

A sequência do acidente aéreo é um espetáculo à parte e puro Raimi: em vez de optar pelo realismo contido, o diretor abraça o exagero. A câmera gira descontroladamente, corpos são lançados como bonecos de pano em câmera lenta, e há um momento de silêncio absoluto antes do impacto que lembra suas melhores obras de terror. É caótico, quase cômico, e estabelece imediatamente o tom de que este não é um drama de sobrevivência convencional.

A decisão de Raimi de lutar para que o filme fosse lançado nos cinemas, e não no streaming, faz todo o sentido quando assistimos à obra. O som da sala de cinema é fundamental para a experiência. O design de som é meticuloso: o silêncio da ilha é pontuado pelo farfalhar ameaçador da vegetação e pelos gemidos de Bradley, criando uma imersão que uma TV em casa jamais reproduziria.

A trilha sonora de Danny Elfman é uma personagem à parte. Longe do tom heróico de Homem-Aranha, Elfman cria uma partitura que oscila entre o lúdico e o macabro, usando cordas frenéticas e momentos de silêncio absoluto que lembram sua obra-prima em O Estranho Mundo de Jack. É a cereja no bolo de uma produção que respira artesanato cinematográfico.

Contexto Temático: O Inferno São os Outros (e o Escritório)

Cena do Filme Socorro!

Socorro! é uma fábula ácida sobre poder e moralidade. A ilha atua como um catalisador que expõe as entranhas do relacionamento abusivo entre chefe e subordinado. Enquanto Bradley detinha o poder corporativo (herdado, nunca conquistado), Linda era submissa. Na ilha, onde o conhecimento de sobrevivência vale mais do que ações na bolsa, a hierarquia se inverte. O filme questiona o que realmente significa ser “apto” e como a moralidade é um luxo de quem está no topo da cadeia alimentar.

Há uma crítica social afiada em como Linda, após experimentar o poder e o controle sobre Bradley, sente uma atração quase intoxicante. A linha entre a vítima e a algoz se torna tênue. A tradição vs. modernidade também aparece: o conhecimento “ultrapassado” e intuitivo de Linda (aprendido em livros e reality shows) supera a arrogância “moderna” e inútil de Bradley, que mal sabe amarrar os próprios sapatos.

O ponto de virada moral ocorre quando Linda descobre que a salvação está ao alcance, mas escolhe omiti-la. Não se trata mais de sobrevivência, mas de manter o domínio que finalmente conquistou. A chegada de uma figura do passado de Bradley (sua noiva, em busca do herdeiro perdido) apenas acirra esse conflito interno. Linda se vê diante de um espelho: ela é melhor do que aqueles que a oprimiram? Ou o poder, uma vez experimentado, corrompe independentemente de quem o detém? O filme não dá respostas fáceis, e é exatamente isso que o torna tão perturbador.

Um Grito que Merece Ser Ouvido na Tela Grande

“Socorro!” é um tiro criativo na cara do cinema de suspense contemporâneo. Pode não ser a obra mais redonda de Sam Raimi, mas é certamente uma das mais divertidas e intrigantes dos últimos anos. É um filme que se delicia em nos deixar desconfortáveis, que nos faz rir de uma situação horrível e que nos força a torcer por uma protagonista cujas intenções são, no mínimo, questionáveis. O confronto final, com Linda empunhando um objeto que simbolizava sua exclusão no mundo corporativo, é uma conclusão poeticamente violenta para essa parábola sobre ressentimento de classe e vingança silenciosa. Prepare-se para sair da sala olhando para seus colegas de trabalho com outros olhos.

Nota do IMDb: 7.8/10

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