Crítica de Eternidade (A24): Vale a pena assistir ao filme da Apple TV+ com Elizabeth Olsen e Miles Teller?

Em um limbo burocrático e visualmente vibrante, Eternidade, a nova comédia dramática da A24 não pergunta se você merece o céu, mas qual deles está disposto a habitar — e, principalmente, com quem. David Freyne constrói uma fábula existencial disfarçada de comédia romântica que funciona como um espelho dos nossos desejos mais superficiais e das nossas amarras emocionais mais profundas.

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Cena do Filme Eternidade

Se há uma coisa que David Freyne acerta em cheio é na construção do mundo. Longe dos corredores nebulosos ou das portas celestiais do imaginário popular, a “Encruzilhada” (o purgatório do filme) é um espaço que mistura o futurismo retrô de uma estação espacial dos anos 60 com a impessoalidade burocrática de um posto do INSS . É um lugar onde os recém-chegados assumem a “versão mais feliz de si mesmos”, o que significa que vemos idosos octogenários transformados em jovens esbeltos e cheios de energia.

A fotografia de Ruairí O’Brien abraça essa artificialidade com lentes anamórficas que tornam o cenário vasto e os personagens pequenos diante das infinitas possibilidades . Os figurinos de Angus Strathie (vencedor do Oscar por Moulin Rouge!) costuram décadas diferentes, criando um amálgama temporal que reforça a ideia de que ali o tempo parou . É um deleite visual que sustenta a premissa fantasiosa com os pés firmemente plantados em um chão de plástico e neon, um espetáculo que dialoga perfeitamente com a trilha sonora vibrante e emocional de David Fleming.

Elenco e Atuações: A Química como Norte

Cena do Filme Eternidade

O grande trunfo de Eternidade é, sem dúvida, o seu elenco afiado.

Elizabeth Olsen (Joan) surpreende ao se distanciar completamente da intensidade da Feiticeira Escarlate para abraçar uma vulnerabilidade quase palpável. Olsen faz algo sutil: ela interpreta uma mulher de 90 anos presa em um corpo jovem, e isso transparece em sua postura, no olhar cansado e na forma como hesita diante das decisões. Seus olhos enormes funcionam como portas de entrada para a tormenta interna de quem precisa escolher entre uma vida inteira de memórias reais e o fantasma de um futuro que nunca existiu.

Miles Teller (Larry) entrega o que pode ser sua performance mais carismática desde Whiplash. Freyne o descreveu como um “Tom Hanks moderno”, e de fato Teller usa essa qualidade de “homem comum” para construir um Larry que é ao mesmo tempo rabugento e profundamente cativante. Há uma cena hilária em que ele tenta fazer uma serenata para Joan e é interrompido de forma desastrosa — é um misto de timing cômico e fragilidade que só um ator da sua estatura poderia equilibrar.

Callum Turner (Luke), por sua vez, poderia facilmente cair no clichê do “galã perfeito” que retorna do passado. Em vez disso, Turner constrói um homem parado no tempo, congelado na juventude e na idealização de um amor que existiu apenas em promessas. Ele tem um olhar de quem esperou por 67 anos em uma estação de trem, e a paciência cansada de quem já viu todas as eternidades possíveis.

No entanto, quem rouba a cena sempre que aparece é a dupla Da’Vine Joy Randolph (Anna) e John Early (Ryan). Randolph, com seu humor seco e sua humanidade enrustída de funcionária pública cansada, é a âncora emocional que impede o filme de flutuar para o puro devaneio. A forma como ela chama Larry de “caso difícil” porque o rival “é gato e tem uma boa narrativa” é um dos muitos momentos em que o roteiro usa a comédia para desarmar o drama.

Virtudes e Defeitos: Uma Comédia que se Perde na Própria Eternidade

Cena do Filme Eternidade

Se a primeira metade do filme é uma lufada de ar fresco criativo, a segunda tropeça em suas próprias pernas. A premissa é brilhante: em vez de um paraíso único, a alma pode escolher entre infinitos mundos temáticos — desde o óbvio “Mundo-Praia” até os revisionistas históricos, como uma “Irlanda sem a fome” ou uma “Alemanha de Weimar sem os nazistas”. A ideia de que a felicidade eterna é, na verdade, um produto a ser escolhido em um showroom é uma sátira deliciosa da sociedade de consumo.

O problema é que o roteiro começa a se repetir. A partir do momento em que o triângulo amoroso está estabelecido, o filme entra em um loop de “Joan não sabe o que fazer” que se arrasta por quase duas horas. A sensação é que a produção tem três ou quatro finais antes de chegar ao verdadeiro desfecho. Essa “barriga” narrativa transforma o que poderia ser uma comédia ágil de 90 minutos em um exercício de paciência que beira a ironia: o filme sobre a eternidade parece durar uma eternidade.

O Dilema: Memória Afetiva vs. Realidade Conjugal

Cena do Filme Eternidade

O grande acerto temático de Eternidade é nunca tratar a escolha de Joan como uma mera disputa entre dois homens bonitos. A decisão é entre duas versões dela mesma. De um lado, Larry representa a vida real: os 65 anos de casamento, as discussões, os netos, a rotina, o tédio e o conforto. É uma escolha baseada na memória e na gratidão.

Do outro lado, Luke é a personificação da “vida que ela nunca viveu”. Ele é o amor interrompido pela Guerra da Coreia, a promessa não cumprida, a juventude eterna. Escolher Luke não é trair Larry; é trair a própria velhice, é rejeitar a bagagem de uma vida inteira em troca de um recomeço virgem. O filme acerta ao colocar Joan como uma mulher que não é idiotizada pela narrativa, mas sim imobilizada pela consciência de que qualquer escolha será, de certa forma, uma perda.

Uma Fábula Sobre o Valor do que Já Temos

Eternidade é um filme sobre o luto, mas não apenas a morte. É sobre o luto pelas possibilidades que deixamos para trás. David Freyne entrega uma obra visualmente inventiva e emocionalmente generosa, ancorada por atuações magnéticas, mas que peca por não confiar na própria agilidade, esticando a corda até quase arrebentar.

A produção da A24 acerta ao tratar o pós-vida não como um prêmio, mas como um espelho de nossas neuroses terrenas. Quando a poeira assenta e a escolha finalmente é feita (em um momento de beleza sutil que vale toda a espera), o filme nos lembra que, às vezes, o paraíso não está no lugar para onde vamos, mas na bagagem emocional que insistimos em carregar conosco. Não é uma obra-prima, mas é uma conversa necessária sobre o fato de que, mesmo diante do infinito, continuamos sendo teimosamente, maravilhosamente e frustrantemente humanos.

Nota IMDb: 6.9/10

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