Devoradores de Estrelas (2026): Crítica do filme que adaptou o fenômeno de Andy Weir

Acordar em uma nave espacial sem memória já é assustador. Descobrir que você é o único sobrevivente de uma tripulação e que o Sol está morrendo é pior ainda. Esse é o ponto de partida de Devoradores de Estrelas, adaptação do best-seller de Andy Weir (mesmo autor de Perdido em Marte). O professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling) precisa reconstruir aos poucos não apenas sua identidade, mas também a lógica científica por trás da catástrofe que ameaça engolir a Terra em uma era do gelo irreversível.

A estrutura narrativa escolhida por Lord e Miller é inteligente: caminhamos lado a lado com Grace na redescoberta de sua missão, em flashbacks que revelam gradualmente como um simples professor foi parar no comando do Projeto Hail Mary. Essa dinâmica mantém a curiosidade do espectador sempre aguçada, transformando cada descoberta científica em um pequeno momento de celebração. A direção de fotografia de Greig Fraser (Duna) transforma o vazio do espaço em algo pulsante e colorido, um espetáculo visual que preenche cada centímetro da tela IMAX com detalhes que beiram a obsessão técnica.

Carisma cósmico e um alien chamado Rocky: quando o elenco abraça o caos

Cena do Filme Devoradores de Estrelas

Ryan Gosling (Ryland Grace) entrega aqui o que talvez seja sua performance mais completa. O ator transita com naturalidade entre o desespero cômico de um homem que não faz ideia do que está fazendo e a vulnerabilidade genuína de alguém que aceita seu destino heroico sem querer ser herói. Não há o “macho durão” da ficção científica tradicional; há um cientista nerd, desajeitado e cativante que resolve problemas cantando músicas ruins e conversando sozinho.

O grande trunfo do filme, no entanto, é Rocky, o alienígena rochoso dublado por James Ortiz. Longe de ser um CGI genérico, Rocky é construído com efeitos práticos e uma manipulação de marionetes impressionante, que lhe confere uma presença tátil e real. A relação entre Grace e Rocky — que começa com desconfiança mútua e evolui para uma das amizades mais puras do cinema recente — é o coração emocional da obra. As cenas em que eles tentam superar a barreira da comunicação e colaboram para salvar seus respectivos mundos são de uma doçura e inteligência raras.

Completando o elenco, Sandra Hüller (Eva Stratt) traz a rigidez necessária para a comandante da missão na Terra, funcionando como o “coração terno” e ao mesmo tempo implacável da burocracia apocalíptica. Já Lionel Boyce (Steve Hatch) rouba a cena nos flashbacks como o segurança que questiona Grace com um humor seco e rouba todas as interações em que aparece.

Virtudes e fraturas: quando a leveza se torna um fardo

Cena do Filme Devoradores de Estrelas

Se a amizade entre Grace e Rocky funciona perfeitamente, o mesmo não pode ser dito de toda a estrutura do roteiro. O maior defeito de Devoradores de Estrelas reside na simplificação excessiva de seus desafios. Problemas científicos complexos são resolvidos com uma facilidade que beira o insulto à inteligência do espectador. A comunicação com Rocky, que poderia render um terço do filme com tentativas e erros fascinantes, é resolvida de forma acelerada.

Além disso, os flashbacks da Terra, embora necessários, quebram o ritmo da narrativa principal. A cooperação internacional para salvar o planeta é retratada de forma tão utópica e infantil que chega a ser ingênua, destoando do tom mais realista e desesperador do espaço. Em certo ponto, a urgência apocalíptica se perde em meio a tantos momentos de alívio cômico, e o filme parece ter múltiplos finais, se arrastando mais do que deveria no terceiro ato.

Contexto temático: solidão, colaboração e o medo do apocalipse silencioso

Cena do Filme Devoradores de Estrelas

Devoradores de Estrelas é, acima de tudo, um filme sobre a solidão e a redescoberta da esperança. Grace está fisicamente isolado, mas sua jornada é um lembrete de que ninguém resolve grandes problemas sozinho. A moralidade aqui não é cinzenta; é claramente otimista. Em um mundo real onde as manchetes gritam crises climáticas e colapsos sociais, o filme propõe uma visão refrescante: a ciência e a amizade ainda podem nos salvar.

A metáfora dos “astrophages” (devoradores de estrelas) é poderosa — são parasitas cegos consumindo a fonte de energia vital. Não há maldade neles, apenas fome. Assim como nos desafios modernos (mudanças climáticas, pandemias), o inimigo não é um vilão com rosto, mas um fenômeno natural indiferente. A resposta de Grace e Rockycolaboração interestelar — é um grito contra o isolacionismo.

Direção e fotografia: a poesia visual do vazio

Greig Fraser merece todos os prêmios. A fotografia do filme é um espetáculo à parte, usando luzes de neon, contrastes profundos e a escuridão absoluta do espaço para criar cenas de tensão que fazem o público prender a respiração. A equipe de Lord e Miller (responsáveis por Anjos da Lei e Homem-Aranha no Aranhaverso) injeta energia visual em cada frame. A montagem ágil de Chris Dickens impede que as longas 2h37 de duração se tornem maçantes, embora não consiga esconder completamente os problemas de ritmo mencionados.

A trilha sonora de Daniel Pemberton merece destaque à parte. Diferente dos scores dramáticos e melancólicos usuais do gênero, Pemberton cria temas que pulsam com a energia de uma aventura clássica dos anos 80, combinando sintetizadores com orquestrações grandiosas. O resultado é uma identidade sonora única que reforça o tom otimista e brincalhão do filme, mesmo nos momentos de maior perigo. As cenas de karaokê a bordo da nave não seriam as mesmas sem a escolha musical perfeita que as acompanha.

Uma ode à amizade que merece ser vista no maior IMAX disponível

Devoradores de Estrelas não é o drama cerebral profundo que alguns esperavam, nem o “próximo Interestelar” em termos de peso filosófico. Ele é, assumidamente, uma comédia de aventura espacial com um coração gigantesco. As falhas de roteiro e a simplificação científica são compensadas pelo carisma avassalador de Ryan Gosling e pela criação de Rocky, um dos personagens mais adoráveis da ficção científica contemporânea. Lord e Miller acertam ao lembrar que, às vezes, o que queremos é apenas sair do cinema com um sorriso no rosto, acreditando que o universo ainda pode ser um lugar acolhedor.

Nota IMDb: 8.1/10

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