Anaconda (2025): A Nostalgia que Morde o Próprio Rabo


Uma equipe de filmagem amadora tenta refazer seu filme B favorito na Amazônia e acaba virando isca para um predador real. Esta é a promessa irônica e meta de Anaconda, o reboot de 2025 que tenta trocar o terror pelo humor, mas acaba se enrolando em seu próprio conceito. Dirigido por Tom Gormican, o longa é uma criatura híbrida que, assim como sua serpente de CGI, nunca decide se quer ser uma comédia de equipe desastrosa, um filme de criatura ou uma sátira de Hollywood.


Um Conceito Engenhoso, uma Execução Confusa

Filme Anaconda de 2025

A grande virtude de Anaconda está em sua premissa central, que é verdadeiramente inteligente. Em vez de um remake assustador, temos uma autoparódia: a história não é sobre uma cobra gigante, mas sobre pessoas obcecadas em filmar uma cobra gigante. Este núcleo, que explora a nostalgia como fuga de uma vida medíocre e a criação artística como redenção, é onde o filme encontra seu coração e seus momentos mais genuínos. A dinâmica entre Griff (Paul Rudd), o ator fracassado, e Doug (Jack Black), o cinegrafista de casamentos frustrado, captura com ternura aquele sonho adolescente teimosamente mantido na meia-idade.

No entanto, o roteiro, também assinado por Gormican e Kevin Etten, rapidamente perde o foco. O filme se divide em múltiplas direções, introduzindo uma subtrama desconexa e forçada envolvendo garimpeiros ilegais e uma fugitiva local (Daniela Melchior). Esta digressão, que parece saída de um filme de ação genérico, não só desacelera o ritmo da comédia como também dilui completamente a originalidade da proposta. A narrativa se torna um amálgama confuso, incapaz de sustentar a tensão de um filme de monstros ou a consistência de uma comédia ágil. A promessa de um “Tropic Thunder na selva” afunda em um rio de ideias mal concatenadas, deixando o espectador à deriva.


Elenco e Atuações: Química no Barco, Personagens no Ralo

Filme Anaconda de 2025

O filme sobrevive graças ao empenho e à química palpável de seu elenco principal. Paul Rudd como Griff é a personificação do patético encantador. Ele usa todo o seu carisma natural para fazer crer que seu personagem realmente acredita que este remake caseiro será sua obra-prima redentora. Jack Black como Doug oferece uma virada interessante, mais contido e terreno, servindo de âncora emocional para a dupla. Sua frustração criativa é palpável e contrasta bem com o otimismo cego de Griff.

No entanto, o destaque indiscutível é Selton Mello como Santiago, o tratador de cobras local. Mello rouba cada cena em que aparece, com um timing cômico impecável e uma entrega tão over quanto deliciosa. Ele injeta uma energia caótica e autêntica que o filme desesperadamente precisa em outros momentos. Já Thandiwe Newton e Steve Zahn, como os outros amigos do grupo, são relegados a funções quase decorativas, com Zahn servindo principalmente para piadas físicas. A personagem de Daniela Melchior é o maior ponto fraco do elenco; mal construída e oscilante, ela parece um elemento de um filme diferente, colado ali para gerar conflito artificial.


Direção, Efeitos e uma Serpente Sem Alma

Filme Anaconda de 2025

Os aspectos técnicos de Anaconda refletem suas contradições narrativas. O maior pecado visual está na própria estrela: a anaconda digital. Em uma era de CGI hiper-realista, a criatura tem uma aparência notavelmente plástica e sem peso, falhando em gerar qualquer senso real de perigo ou ameaça. A possível tentativa de homenagem ao caráter trash do original de 1997 se perde, resultando em um efeito visual que simplesmente parece mal feito.

A direção de Tom Gormican é funcional, mas falta personalidade audaciosa ou domínio do suspense. As sequências de “terror” são editadas de forma preguiçosa, repetindo os mesmos clichês de susto e carecendo de uma construção atmosférica genuína. Curiosamente, onde a produção acerta é nos detalhes de design de produção que remetem ao cinema amador e na trilha sonora pop energética, que pelo menos mantém um ritmo artificialmente acelerado.


O Fio Temático: Sonho vs. Realidade, Arte vs. Comércio

Filme Anaconda de 2025

Por baixo do humor pastelão, Anaconda tenta costurar temas interessantes. Ele fala sobre a crise da meia-idade e o desejo desesperado de provar que a vida ainda pode ser extraordinária. A jornada na Amazônia é, na verdade, uma fuga da mediocridade. Outro eixo forte é a sátira ao sistema de reboots e à nostalgia como commodity. O filme dentro do filme é um comentário irônico sobre a própria existência desta nova versão de Anaconda.

No entanto, essa autorreflexão é superficial. O longa parece ter medo de morder a mão que o alimenta, fazendo críticas leves a Hollywood sem nunca ser verdadeiramente incisivo. A mensagem final sobre “fazer arte com os amigos” é adocicada, mas soa vazia quando o produto final é justamente um filme que parece ter sido feito por comitê, sem uma visão artística clara.


Uma Ideia que Não Amadureceu

Anaconda (2025) é um animal cinematográfico estranho: tem a pele brilhante de uma ideia inteligente, mas seu esqueleto narrativo é frágil e sua mordida, inofensiva. O filme entende a piada, mas não consegue sustentá-la por 99 minutos, afogando seus melhores momentos de química cômica em um pântano de subplots desnecessários e humor irregular.

Vale a pena pela energia contagiante de Paul Rudd, pela virada mais sóbria de Jack Black e, principalmente, pelos cinco minutos de glória de Selton Mello. É a definição de um “filme para assistir com o cérebro desligado”, mas que mesmo assim exige paciência com suas digressões tediosas. No final, a maior ironia é que, ao tentar fazer um filme sobre a dificuldade de recapturar a magia do passado, Anaconda acaba demonstrando exatamente essa dificuldade na prática. Uma aventura inofensiva, esquecível e, no máximo, levemente divertida.

Nota IMDb: 5.5/10

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