Quando o simples ato de buscar um filho em um playdate se transforma no início de um pesadelo, toda a estrutura de uma vida perfeita desaba. É nesse terreno pantanoso que All Her Fault, minissérie de suspense que dominou o Prime Video em 2026, crava suas raízes. A história acompanha Marissa Irvine (Sarah Snook), uma bem-sucedida gestora de patrimônio, que vai buscar o filho Milo em um endereço que não é o correto. A mulher que abre a porta nunca ouviu falar dele. Esse momento de puro pânico, tão visceralmente capturado, é o gatilho para uma espiral de mentiras, segredos familiares e uma investigação policial que questiona não apenas “quem”, mas “por quê”. A série vai muito além do thriller de criança desaparecida; é um estudo afiado sobre culpa, julgamento e os fardos invisíveis que a sociedade, especialmente as mães, são obrigadas a carregar.
A Narrativa: Um Quebra-Cabeça de Tensão com Algumas Peças Soltas
A grande virtude da narrativa de All Her Fault, adaptada do romance de Andrea Mara, é seu ritmo implacável e sua habilidade em manter o espectador constantemente reavaliando suspeitas. Os roteiros, comandados por Megan Gallagher, tecem uma teia complexa onde ninguém é totalmente inocente. A trama alterna com precisão entre a investigação desesperada de Marissa e do marido Peter (Jake Lacy), a solidariedade ambígua da nova amiga Jenny (Dakota Fanning) e a apuração meticulosa do detetive Alcaras (Michael Peña). A série brilha ao explorar as fissuras que a tragédia causa no casamento dos Irvine, expondo finanças turbulentas, traições não ditas e uma dinâmica familiar disfuncional que se torna central para o mistério.
No entanto, a narrativa não está imune a falhas. O meio da série, por volta do quarto episódio, sofre uma ligeira desaceleração, com subtramas – como os problemas com a irmã de Peter, Lia (Abby Elliott) – que, embora relevantes para o desenvolvimento dos personagens, quebram a tensão acumulada de forma um tanto abrupta. Além disso, a resolução final, apesar de satisfatória e emocionalmente impactante, recorre a uma ou duas coincidências narrativas que podem parecer forçadas para espectadores mais atentos. São deslizes menores em um conjunto geralmente muito bem amarrado, mas que evidenciam a dificuldade de sustentar um suspense tão elevado ao longo de oito episódios.
Elenco e Atuações: O Peso da Emoção nos Ombros Certos
O trunfo absoluto de All Her Fault repousa em seu elenco excepcional, que entrega performances nuances e cheias de camadas.
Sarah Snook como Marissa Irvine: Snook abandona qualquer resquício de Shiv Roy de Succession para mergulhar na pele de uma mãe em agonia. Sua atuação é um estudo contido do desespero. Ela não grita histérica; seu pânico se manifesta em olhos vidrados, mãos trêmulas e uma voz que falha no momento mais crucial. A cena em que ela, sozinha no carro após a primeira negação, tenta processar o improcessável, é uma aula de como transmitir terror absoluto sem uma única palavra.
Dakota Fanning como Jenny Kaminski: Fanning é o coração ambíguo da série. Sua Jenny é inicialmente um porto seguro, uma aliada inesperada. No entanto, Fanning semeia, com maestria, pequenos gestos de hesitação e olhares calculados que deixam o espectador constantemente inseguro sobre suas reais intenções. A química entre Snook e Fanning é eletrizante, tornando sua improvável aliança o motor emocional mais fascinante da trama.
Michael Peña como Detetive Alcaras: Peña rouba a cena sempre que aparece. Seu detetive não é o policial clichê e cínico, mas um homem profundamente ético, cuja determinação é testada por um sistema burocrático e pelas complexidades morais do caso. A subtrama envolvendo seu filho com necessidades especiais adiciona uma profundidade humana rara ao personagem, e Peña a executa com uma dignidade silenciosa que é comovente.
Jake Lacy como Peter Irvine: Lacy enfrenta o desafio de interpretar um personagem que, à primeira vista, pode parecer distante e até suspeito. Ele, no entanto, consegue transmitir a frustração e o medo de um homem que se sente impotente, cujas tentativas de controlar a situação – como esconder informações da polícia – vêm de um lugar de desespero, não de malícia. Suas cenas de confronto com Snook são carregadas de uma raiva e dor conjugais palpáveis.
O elenco de apoio é igualmente sólido, com destaque para Jay Ellis como o sócio leal mas problemático de Marissa, e Sophia Lillis, que traz uma inquietante dualidade à misteriosa babá e sequestradora Carrie.
Direção e Fotografia: A Angústia em Tons de Cinza e Sombra
A direção de Minkie Spiro e Kate Dennis é sóbria e eficiente, privilegiando o drama humano sobre golpes teatrais. A escolha de manter a câmera próxima aos rostos dos atores, especialmente em momentos de revelação, intensifica a claustrofobia emocional. A fotografia é um personagem por si só. A paleta visual é dominada por tons frios de azul e cinza nas cenas externas e de investigação, contrastando com os interiores quentes, porém opressivos, da casa dos Irvine – um visual que metaforiza a fachada perfeita que esconde uma realidade asfixiante.
A edição tensa e a trilha sonora minimalista de Jeff Beal, que usa poucos acordes de piano para gerar inquietação, completam um pacote de produção de alto nível. A série se recusa a subestimar o espectador, usando a linguagem audiovisual para construir atmosfera, não apenas para pontuar sustos.
Temas: A Culpa Coletiva e os Julgamentos Pré-Fabricados
All Her Fault transcende o gênero policial para se tornar um comentário social incisivo. No centro da trama está a pressão esmagadora sobre as mães modernas. Marissa é julgada por ser uma mãe que trabalha, por sua riqueza, por sua aparente frieza. A série questiona: por que a sociedade está tão disposta a culpar a mãe pela tragédia? A culpa do título é multifacetada: é a culpa que Marissa sente, a culpa que a sociedade lhe impõe e a culpa secreta que diversos personagens carregam.
Isso se conecta diretamente a temas de moralidade em tons de cinza. Ninguém aqui é um herói ou vilão puro. As ações são motivadas por amor, medo, ganância ou uma mistura tóxica de todos. A série também escava as dinâmicas de poder em famílias abastadas, mostrando como o dinheiro pode tanto proteger quanto aprisionar, e como segredos são moeda de troca para manter aparências. A oposição entre tradição (a expectativa do papel materno sacrifical) e modernidade (a realidade das mulheres que buscaram carreira e autonomia) é um fio condutor que dá profundidade sociológica ao suspense.
Um Thriller que Incomoda e Provoca mais do que Entertain
All Her Fault não é uma série fácil ou de consumo passivo. É uma experiência que gruda na pele, que provoca reflexão desconfortável sobre nossos próprios julgamentos e as máscaras que usamos. Se alguns tropeços narrativos no meio do caminho impedem que seja considerada uma obra-prima impecável, seu poder reside na combinação de um suspense bem construído com um drama humano profundamente ressonante. Sustentada por performances magnéticas, especialmente de Sarah Snook e Dakota Fanning, e por uma produção técnica impecável, a minissérie cumpre sua promessa de ser um thriller viciante, mas seu legado mais duradouro será como um espelho doloroso e necessário “held up” à sociedade contemporânea.
Nota IMDb: 7.6/10
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