Uma cápsula selada por décadas, um organismo alienígena e um depósito de autoatendimento: em Alerta Apocalipse (2026), a receita para o fim do mundo é absurdamente mundana. Dirigido por Jonny Campbell a partir do romance de David Koepp, o filme promete um thriller de horror biológico temperado com humor seco, mas se debate entre o tom pastelão dos filmes B dos anos 80 e uma seriedade narrativa que não consegue sustentar. Em um cenário repleto de histórias pós-apocalípticas, o filme tenta sobreviver no limbo entre o cult divertido e o blockstream esquecível, com resultados mistos.
Um Fungo de Outro Mundo
A premissa de Alerta Apocalipse é instigante e beira o fantástico: no final dos anos 70, os destroços da estação espacial Skylab, que realmente caíram na Terra, trazem consigo um contaminante alienígena – um fungo de inteligência latente e poder destrutivo absoluto. O agente especialista em bioterrorismo Robert Quinn (Liam Neeson) e sua parceira Trini Romano (Lesley Manville) conseguem conter a primeira epidemia, mas falham em erradicá-la. A amostra é armazenada em uma instalação militar secreta, que décadas depois se transforma em um banal depósito de autoatendimento 24 horas. O descongelamento acidental do patógeno por uma falha no sistema de refrigeração coloca dois funcionários despreparados, Travis “Teacake” (Joe Keery) e a novata Naomi (Georgina Campbell), no centro de uma corrida contra o tempo para evitar uma pandemia global.
Entre o Terror Corporal e o Humor Seco
A maior virtude do filme está em sua estética propositalmente retrô. Jonny Campbell e o diretor de fotografia Tony Slater Ling abraçam uma linguagem visual que remete a filmes de invasão corporal dos anos 80 e 90. Os efeitos práticos de maquiagem são abundantes, grotescos e, em muitos momentos, eficazes na criação de uma sensação de repulsa visceral. As cenas de infecção e transformação não poupam o público, com uma ênfase em corpos deformados e explosões viscerais que funcionam como um tributo bem-executado ao gênero. O problema surge na tentativa de equilibrar essa carnificina com uma camada de humor.
Alerta Apocalipse não decide se quer ser uma comédia escrachada ou um suspense de horror sério. Em sua melhor forma, o humor surge do contraste entre a banalidade do local (um depósito com corredores infinitos de tralhas) e a grandiosidade da ameaça. No entanto, o tom oscila bruscamente, e momentos que poderiam ser leves ou absurdos são frequentemente sufocados pela insistência de Koepp em desenvolver um drama de culpa e redenção para Neeson, que acaba por ancorar o ritmo em um lodo narrativo. A trilha sonora de Mathieu Lamboley também reflete essa confusão, alternando entre temas sinistros e batidas pop irônicas que, por vezes, soam como comentários deslocados.
Elenco e Atuações: Química Improvável em Tempos de Crise
O elenco de Alerta Apocalipse é, sem dúvida, o pilar mais sólido do filme, e sua performance quase salva a produção de seus próprios tropeços.
Joe Keery como Travis “Teacake”: Keery confirma seu talento para personagens carismáticos e levemente deslocados. Seu Travis é um underdog simpático, cujo humor autodepreciativo e atitude “faz-tudo” criam o coração humano da narrativa. Ele carrega grande parte do primeiro ato com um carisma natural que torna o personagem imediatamente cativante.
Georgina Campbell como Naomi: Campbell oferece o contrapeso perfeito à leveza de Keery. Sua Naomi é metódica, inteligente e pragmática, uma sobrevivente nata. A química entre os dois é palpável e crível, transformando sua aliança forçada em uma das relações mais interessantes do filme. Sua evolução de estranhos desconfiados a parceiros que dependem um do outro é um dos arcos mais bem desenvolvidos.
Liam Neeson como Robert Quinn: Neeson entrega exatamente o que se espera dele: presença física, uma voz grave carregada de peso e uma expressão de cansaço profundo. No entanto, o roteiro pouco faz para ir além do arquétipo do “herói cansado voltando à ação”. Sua motivação – a culpa por um erro do passado – é rasa e serve mais como um motor narrativo conveniente do que como uma exploração psicológica genuína.
Lesley Manville como Trini Romano e Vanessa Redgrave como Ma Rooney: A presença dessas duas damas do cinema britânico é uma surpresa deliciosa. Manville, em particular, rouba cenas com seu sarcasmo afiado e uma postura que mistura competência militar com um desdém hilariante pela burocracia. Redgrave, em uma participação breve, consegue dar peso e ressonância emocional a um papel que poderia ser insignificante.
A Ambição Desencontrada da Narrativa
Aqui reside o calcanhar de Aquiles do filme. A premissa originalíssima de um fungo alienígena que caiu com o Skylab é engolida por uma sucessão de clichês de gênero. A narrativa de Alerta Apocalipse segue um checklist previsível: a descoberta acidental da ameaça, a falha das autoridades, o herói relutante sendo reconvocado, a corrida contra o tempo em um local confinado e até um terceiro ato que abandona a claustrofobia do depósito por uma conclusão mais aberta e convencional.
O roteiro de David Koepp, adaptado de seu próprio livro, brilha em diálogos rápidos e na construção da dinâmica inicial entre Travis e Naomi. No entanto, ele não consegue integrar organicamente as linhas narrativas do passado (Neeson/Manville) e do presente (Keery/Campbell). O resultado são flashbacks que interrompem o ritmo e um antagonista biológico cujas regras de infecção parecem mudar conforme a conveniência do roteiro.
Um Passado que Nunca Fica para Trás: Culpa e a Ilusão do Controle
Para além dos jump scares e dos fungos pulsantes, Alerta Apocalipse tenta falar sobre a culpa e o legado tóxico de decisões tomadas por instituições supostamente protetoras. A ameaça não é apenas alienígena; é um fruto da arrogância humana – primeiro ao trazer o perigo para estudo, depois ao acreditar que poderia ser controlado e, por fim, ao simplesmente escondê-lo. Robert Quinn personifica essa falha institucional. Sua luta não é apenas contra o fungo, mas contra o fantasma de sua própria inação e da negligência do sistema que serviu.
Um Esporo Promissor que não Germinou
Alerta Apocalipse é um filme de contradições. Possui um elenco talentosíssimo com química eletrizante, uma premissa de altíssimo conceito e uma direção de arte que homenageia com amor o horror corporal de outrora. No entanto, é derrotado por um roteiro que não consegue equilibrar seus próprios tons e que sucumbe à tentação dos clichês fáceis. A experiência é como assistir a dois filmes diferentes que não se fundem perfeitamente.
É uma obra que pode encontrar seu público entre fãs de cult movies e da estética retro, mas que dificilmente será lembrada como mais do que uma curiosidade na filmografia de seus envolventes protagonistas.
Nota do IMDb: 5.8/10
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