Crítica: A Morte de um Unicórnio (A24) – Vale a pena assistir no Prime Video?

Em meio a uma mansão repleta de herdeiros entediados e executivos de sorriso pasteurizado, um pai e uma filha atropelam algo que a lógica insiste em não existir. Mas a ganância, diferentemente da magia, nunca precisou de provas. A Morte de um Unicórnio não é sobre o que morreu na estrada. É sobre o que acordou nos porões da família Leopold.

O Animal Moribundo: Entre a Fábula e o Balanço Patrimonial

Cena do Filme A Morte de um Unicórnio

Há um momento, nos primeiros vinte minutos do longa de estreia de Alex Scharfman, em que o advogado Elliot Kintner (Paul Rudd) observa o cadáver do unicórnio na estrada e pergunta: “O que a gente faz agora?”. A resposta que o filme oferece – e sustenta por 107 minutos – é tão cruel quanto cômica: a humanidade, quando confrontada com o inexplicável, não se ajoelha. Ela precifica.

Produzido pela A24 com orçamento enxuto de US$ 15 milhões, A Morte de um Unicórnio chegou aos cinemas brasileiros em julho de 2025 e agora, em 2026, desembarca no Prime Video com a cara manchada de sangue metafórico e digital. É uma obra que transita entre o terror corporal e a comédia pastelão, mas cujo verdadeiro gênero é outro: o da crônica da degenerescência dos afetos sob o capitalismo tardio. Sim, é um filme sobre um unicórnio assassinado. Sim, há cenas de pessoas sendo empaladas por chifres mágicos. Mas a ferocidade real não está nos cascos das criaturas vingativas – está na frieza com que os Leopold dissecam o sagrado em nome do “ROI”.

Narrativa na Corda Bamba: Virtudes que Brilham e Defeitos que Sangram

Cena do Filme A Morte de um Unicórnio

Scharfman acerta ao nunca subestimar o potencial satírico de sua própria premissa. A descoberta das propriedades curativas do unicórnio – o pó do chifre reverte doenças, o sangue rejuvenesce – é tratada com a mesma frieza documental de um manual de instruções de centrifugadora. Há uma cena especificamente brilhante em que Odell Leopold (Richard E. Grant) discute a “escalabilidade da mitologia” com seu comitê de cientistas, como se avaliasse a abertura de franquias de fast-food. É ali, na banalidade do mal corporativo, que o filme encontra seu melhor combustível.

No entanto, a mesma mão que desenha a sátira afiada deixa escorrer o sangue pelo ralo. O maior problema de A Morte de um Unicórnio é acreditar que pode ser todas as coisas ao mesmo tempo: horror visceral, fábula moral, comédia pastelão e drama familiar. O tom oscila como uma agulha descalibrada. O CGI, como era de se esperar de um orçamento modesto, é um caso à parte. Os unicórnios adultos possuem design inspirado, mas o filhote parece ter escapado de um comercial de margarina de 2005. Para um filme que exige engajamento emocional com o animal sacrificado, o tropeço visual é quase imperdoável.

Elenco e Atuações: O Talentoso Senhor Carrigan (e o Resto da Festa)

Cena do Filme A Morte de um Unicórnio

Falemos do elefante – ou do unicórnio – na sala. Anthony Carrigan, no papel de Griff, o empregado de olhos expressivos e timing impecável, literalmente rouba o filme. Sua personagem tem talvez doze falas, mas cada expressão facial é um curta-metragem à parte. Quando Griff percebe que está cercado por vingadores mitológicos, seu olhar não comunica medo: comunica cansaço existencial.

Paul Rudd, por sua vez, faz “Paul Rudd”. Seu carisma é inegável, mas Elliot Kintner carece da vulnerabilidade necessária para tornar a redenção do terceiro ato algo além de uma cláusula contratual. Já Jenna Ortega enfrenta o desafio de interpretar Ridley, a “donzela de coração puro”. O problema não é Ortega, mas sim a unidimensionalidade da personagem: ela é menos uma protagonista e mais um post-it moral fixado na testa do espectador. O verdadeiro destaque cômico está em Will Poulter, como o herdeiro mimado Shepard Leopold, que oferece uma aula de timing cômico soturno.

O Que Resta Quando o Encanto Vira Commodity

Cena do Filme A Morte de um Unicórnio

A Morte de um Unicórnio é, acima de tudo, um filme sobre tradução. O que acontece quando uma criatura nascida dos bestiários medievais é subitamente inserida numa planilha de Excel? A resposta de Scharfman é direta: o mito morre, mas a mercadoria sobrevive.

Os Leopold não são vilões apenas porque matam o unicórnio; são vilões porque veem no cadáver uma oportunidade de patentear a sequência genética do chifre. O capitalismo não apenas destrói o sagrado; ele o reescreve em linguagem de direitos autorais. O conflito geracional entre o pai (Rudd), que acredita poder negociar com o sistema, e a filha (Ortega), que sabe que o sistema é o monstro, é o que resta de humano na trama.

Direção e Fotografia: A Mansão como Personagem

A Mansão de A Morte de um Unicórnio

A fotografia de Mike Gioulakis transforma a propriedade dos Leopold num personagem silencioso. Há grandiosidade vazia nos corredores e uma frieza escandinava nos móveis de design. É o retrato arquitetônico da decadência: dinheiro velho e afeto vencido. O problema reside na montagem: o segundo ato se arrasta e a tensão é diluída em repetições de fórmulas slasher. Quando o filme decide soltar os freios no clímax, o fôlego narrativo já está curto.

O Cadáver Insepulto da Sátira Contemporânea

“O Que Não Pode Ser Patenteado, Deve Ser Devorado”

A Morte de um Unicórnio não é um filme ruim, é um filme frustrante. Há em suas entranhas um clássico cult tentando respirar, mas as amarras do formato convencional seguram o bicho pela crina. É possível se divertir com as mortes criativas e o deboche de Will Poulter, mas é difícil ignorar o abismo entre o que o filme quer ser e o que ele consegue entregar.

Scharfman tem ideias e um elenco de peso. Agora precisa confiar mais na própria voz.

Nota do IMDb: 5,9/10

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