O homem que matou o irmão não encontrou liberdade. Encontrou um silêncio pior do que qualquer guerra. Peaky Blinders: O Homem Imortal não é sobre redenção — é sobre o abismo que se abre quando você percebe que o monstro que lutava para controlar sempre foi você.
Dirigido por Tom Harper e escrito por Steven Knight, o longa de 2026 chega como um ponto final que menos parece um adeus e mais uma autópsia. Tommy Shelby (Cillian Murphy) não está no topo do mundo. Não está planejando o próximo golpe. Não está protegendo a família. Ele está escondido. E o motivo dessa fuga é mais brutal do que qualquer inimigo que ele já enfrentou: ele mesmo.
Elenco e Atuações: O Fardo de Cillian Murphy e a Fúria de Barry Keoghan
A ausência mais barulhenta de Peaky Blinders: O Homem Imortal é também sua ferida mais profunda. Paul Anderson não está aqui porque Arthur Shelby está morto. E não de morte natural — Tommy o substituindo pelo seu próprio acesso de “álcool e fúria”. Tommy estrangulou o próprio irmão, e o filme não nos poupa do peso disso.
Cillian Murphy entrega um Tommy Shelby irreconhecível. Não a versão calculista e estratégica que aprendemos a temer. Este Tommy caminha como um homem carregando um cadáver nas costas — e em certo sentido, está. Murphy usa o rosto como um campo de batalha silencioso: olheiras profundas, olhos que evitam o contato visual, uma mandíbula que se contrai sozinha. Na cena em que ele confessa o crime para Ada (Sophie Rundle), ele não chora. Apenas diz o fato com uma naturalidade aterrorizante. É o tipo de atuação que dói de assistir.
Barry Keoghan como Duke Shelby, filho ilegítimo de Tommy, é o fogo jovem que contrasta com o gelo do pai. Keoghan abandona a manic energy de seus papéis anteriores para entregar um Duke contido, frio, mas visivelmente ferido por abandono. A cena em que ele e Tommy lutam na lama é estranhamente cômica e profundamente triste — dois homens que não sabem ser pai e filho, apenas rivais.
Sophie Rundle brilha em seus momentos finais como Ada, agora membro do Parlamento, tentando manter a humanidade em uma família que afogou a dela em sangue. Rebecca Ferguson entra como Kaulo, uma figura mística que conecta Tommy às suas raízes ciganas e ao sobrenatural do universo da série, e Tim Roth faz o que pode como o vilão nazista Beckett — eficiente, mas unidimensional.
Narrativa: Virtudes e Defeitos de uma Tragédia Anunciada
Virtudes: A maior virtude do filme é não romantizar Tommy Shelby. Pela primeira vez, a narrativa o trata como o vilão que ele sempre foi. Matar Arthur não foi um acidente, não foi uma morte em batalha, não foi sacrifício heroico. Foi um assassinato cometido por um homem bêbado que não suportava mais olhar para o irmão viciado. O roteiro de Knight tem a coragem de dizer: não há justificativa.
A sequência em que Tommy tenta escrever suas memórias é um estudo de como a culpa paralisa. Ele não consegue terminar uma frase sem ser interrompido por visões — de Grace, de Polly, de Ruby, e agora de Arthur. O filme entende que o verdadeiro inferno não é o sofrimento, mas a memória do que você fez.
Defeitos: O filme sofre de um problema estrutural: ao matar Arthur fora das telas, ele elimina o coração emocional da saga sem substituí-lo adequadamente. Duke é interessante, mas não é Arthur. A tentativa de transformar a relação entre Tommy e Duke no novo centro dramático funciona em partes — a cena final entre eles é genuinamente comovente — mas o filme precisa de mais tempo do que suas duas horas oferecem.
A subtrama dos nazistas e das notas falsas (Operação Bernhard) é funcional, mas genérica. Beckett é um vilão de prateleira, e o filme perde fôlego sempre que se afasta do drama familiar para se concentrar na conspiração.
Direção e Fotografia: A Estética do Isolamento
Tom Harper abandona o ritmo frenético da série por algo mais lento, mais sufocante. A fotografia de George Steel usa um azul doentio para o presente de Tommy — um mundo sem cor, sem calor — e um âmbar sujo e quente para os flashbacks, como se o passado fosse mais vivo que o presente.
O plano mais poderoso de Peaky Blinders: O Homem Imortal é também o mais simples: Tommy sentado sozinho em uma mesa comprida, em uma mansão vazia, com um prato de comida intacta à sua frente. A câmera não se move por quase um minuto. Ouvimos apenas o vento e, ao fundo, o som abafado de uma respiração que pode ser a dele ou a de um fantasma. Harper nos força a sentar com a solidão de Tommy. É desconfortável. É genial.
Contexto Temático: A Imortalidade Como Condenação
O título “O Homem Imortal” é irônico. Tommy não é imortal porque é invencível. É imortal porque não consegue morrer — e isso é sua punição. Steven Knight disse que Tommy matar Arthur foi a única coisa “grande o suficiente” para fazê-lo se retirar do mundo. Mas o filme vai além: matar Arthur não foi o preço da liberdade. Foi a prova de que Tommy nunca esteve lutando pela família. Ele estava lutando por si mesmo, e a família era só o combustível.
A culpa de Tommy não é abstrata. Ela tem nome, rosto, e agora ocupa cada cômodo da mansão onde ele se esconde. Ele não busca perdão porque não acredita que merece. Busca esquecimento — e descobre que o cérebro humano não foi feito para apagar os irmãos que matamos.
Peaky Blinders: O Homem Imortal também explora a diferença entre legado e linhagem. Duke é o legado de Tommy, mas não sua linhagem emocional. Ele herdou o pior do pai: a violência fria, a ambição, a incapacidade de amar sem destruir. A pergunta que paira sobre o filme é: Tommy criou um monstro pior do que ele? E a resposta, sugerida na cena final, é um silêncio ensurdecedor.
O Homem que Sobreviveu a Todos, Menos a Si Mesmo
Peaky Blinders: O Homem Imortal é um filme imperfeito, mas corajoso. Ele comete o erro de subestimar o impacto emocional de Arthur Shelby ao retirá-lo de cena sem um substituto à altura. A trama de espionagem é esquecível, e o ritmo tropeça em vários momentos.
Mas quando o filme acerta — quando Murphy deixa a máscara cair, quando Harper enquadra Tommy sozinho em meio a fantasmas, quando entendemos que matar Arthur foi o ato mais covarde e mais humano de Tommy — ele acerta com força devastadora.
Não há triunfo aqui. Não há abraço de despedida. Há apenas um homem que matou o irmão, descobriu que a culpa não o libertou, e agora vive numa cela que ele mesmo construiu, com as chaves jogadas fora. Imortal? Sim. Mas a imortalidade, para Thomas Shelby, sempre foi a pior das maldições.
Nota IMDb: 6.6/10
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