Em um mundo saturado de filtros de Instagram e injeções de GLP-1, o criador Ryan Murphy pega carona na nossa insegurança coletiva e a explode — literalmente — em The Beauty. A nova série do FX é um terror corporal visceral que abre com uma das sequências mais eletrizantes do ano: a supermodelo Bella Hadid, suando em um desfile da Balenciaga, sai em um surto violento ao som de “Firestarter” do The Prodigy, rouba uma moto e detona tudo até explodir em uma chuva de sangue e glitter. Se você ficou curioso, prepare-se: a jornada é tão irregular quanto a textura de uma pele recém-regalada.
A Dança dos Desejos: Virtudes e Defeitos da Peste Estética
A grande virtude de The Beauty é sua capacidade de entreter sem pedir desculpas. Murphy, co-criador da série ao lado de Matthew Hodgson, acerta ao transformar a premissa da HQ de Jeremy Haun e Jason A. Hurley em um parque de diversões sangrento. A produção não economiza nos efeitos práticos; as transformações são nojentas e fascinantes, lembrando o body horror de Clive Barker, com corpos se contorcendo em posições impossíveis antes de emergirem de casulos pegajosos como “bebês-pássaros sexys”, nas palavras de uma crítica certeira. A fotografia, que passeia por locações deslumbrantes em Paris, Roma e Veneza, é um colírio para os olhos — contrastando a beleza dos cenários com a podridão interna da trama.
No entanto, a série sofre de uma síndrome de “ideias jogadas na parede”. O roteiro levanta questões pertinentes sobre a cultura do Ozempic, a indústria farmacêutica e a busca incessante pela juventude, mas raramente as aprofunda. É como se Murphy estivesse com pressa para chegar à próxima cena de explosão ou ao próximo close em um abdômen tanquinho. O tom é inconsistentemente instável: ora quer ser uma crítica social afiada, ora uma sequência de videoclipe com coreografias laboratoriais ao som de Tame Impala. Apesar disso, a narrativa de 11 episódios raramente é chata, movendo-se com a urgência de uma febre, mesmo que às vezes pareça que está girando em círculos.
A Geleia Real de Elenco: Atuações e Personagens
O grande trunfo de The Beauty é, sem dúvida, seu elenco escalado como se fosse a festa de aniversário mais exclusiva de Hollywood. Evan Peters (Cooper Madsen) e Rebecca Hall (Jordan Bennett) formam a dupla de agentes do FBI que estão sempre resolvendo casos e, ocasionalmente, seus próprios desejos. Peters transita bem entre o heroísmo e a vulnerabilidade, especialmente quando seu personagem reflete sobre aceitar imperfeições através da arte Kintsugi. Hall traz a gravidade necessária, mesmo quando sua personagem é reduzida a uma ironia cruel: após ser infectada, ela é “substituída” por uma versão mais jovem (Jessica Alexander), levantando questões não intencionais sobre o que a sociedade realmente considera “belo”.
Ashton Kutcher surpreende como “The Corporation”, um bilionário claramente inspirado em Elon Musk. Ele canaliza uma arrogância patética que oscila entre o ameaçador e o ridículo — sua melhor cena é quando é chamado de “clown boy” por Isabella Rossellini. Anthony Ramos interpreta “The Assassin” com uma frieza estilizada, quase um Patrick Bateman menos yuppie, que encontra um brilho especial quando contracena com Jeremy Pope.
Falando em Jeremy Pope, ele é o coração pulsante da série. Como Jeremy, um pseudo-incel obeso que vive no porão dos pais, Pope humaniza um personagem que poderia facilmente ser motivo de piada. Sua jornada de transformação e descoberta é uma das poucas que realmente adiciona camadas à narrativa. E por fim, Isabella Rossellini, como a esposa Franny, rouba todas as cenas, servindo como uma lembrança viva de que a verdadeira beleza (e presença de tela) não precisa de vírus ou injeções.
A Metáfora que Explodiu: Poder, Moralidade e o Medo Líquido
Se A Substância de 2024 era um grito feminista sobre o envelhecimento, The Beauty expande o espectro para uma crítica mais ampla e, infelizmente, mais diluída. A série explora a moralidade em tempos de capitalismo tardio, onde a tradição de envelhecer e aceitar imperfeições é atropelada pela modernidade das biotecnologias e dos padrões instantâneos.
A grande sacada temática é como o vírus — que é esteticamente desejável, sexualmente transmissível e fatal — funciona como uma metáfora confusa, mas poderosa, para nossa relação com a indústria farmacêutica e as redes sociais. Há ecos do vírus na forma como a doença é demonizada e desejada ao mesmo tempo. O poder absoluto nas mãos dos bilionários (os “deuses” que podem comprar a perfeição) é outro alvo constante. A série pergunta: o que você sacrificaria para se encaixar? A resposta, infelida e divertidamente, geralmente envolve sangue e vísceras. O problema é que a série joga tantas ideias no ar que fica impossível saber se a mensagem final é pró-vacina, antivax ou simplesmente um grande “dane-se”.
Beleza Superficial, Entretenimento Garantido
The Beauty é o típico produto Ryan Murphy: visualmente deslumbrante, sexualmente carregado, narrativamente caótico e terrivelmente viciante. Não é a crítica social original e afiada que promete ser, mas é um dos programas mais divertidos e grotescos do ano. Se você entrar na pilha de que é uma montanha-russa de sangue e silicone, sem esperar um tratado filosófico, a experiência é extremamente prazerosa. É um Nip/Tuck para a era do Ozempic, completo com todos os excessos e defeitos que isso implica.
Nota IMDb: 6.8/10
E aí, o que achou do review? Já assistiu o começo da segunda temporada de The Beauty (2026)? Conta pra gente nos comentários!