Emerald Fennell, a cineasta por trás do fenômeno Saltburn, entrega sua visão do clássico de Emily Brontë: uma adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes tão estilizada e controversa quanto se esperava. Margot Robbie e Jacob Elordi são os novos Cathy e Heathcliff em um furacão de desejo, estética pop e críticas vorazes.
Virtudes e Defeitos: O Estilo Como (Única) Substância?
Assistir a O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennell é uma experiência desconfortável e deliberadamente anacrônica, que oscila entre o brilhantismo visual e o vazio emocional. A principal virtude do filme é, sem dúvida, sua coragem estética. Fennell não tem interesse em uma reverência silenciosa ao museu literário; ela quer manchar as paredes de pedra com batom e suor. A fotografia é um banquete para os sentidos, capturando os campos alagados de Yorkshire não com a paleta sóbria do drama de época tradicional, mas com uma saturação que evoca um videoclipe gótico de luxo.
A trilha sonora de Charli XCX é uma escolha divisiva e genial, injetando uma urgência eletrônica e pop nos momentos de maior tensão, como se o desejo dos personagens fosse moderno demais para ficar preso no século XIX.
No entanto, o calcanhar de Aquiles da narrativa é a sua incapacidade de sustentar a profundidade psicológica que a obra exige. Ao “usar a desculpa da interpretação para esvaziar um dos romances mais passionais já escritos”, como aponta a crítica mais contundente, Fennell cria um efeito de distanciamento. O roteiro parece mais interessado na coreografia da dança entre os amantes do que no que os faz dançar sobre um abismo.
Há um desequilíbrio tonal evidente: cenas de uma crueza quase desconfortável (como a abertura que brinca com expectativas eróticas via cordas rangendo) são sucedidas por diálogos que soam superficiais, como se os personagens estivessem lendo manchetes de revista sobre a própria tragédia.
Elenco e Atuações: Entre a Fúria e a Apatia
Margot Robbie (Catherine Earnshaw) entrega uma performance que é um estudo de caso sobre a direção de Fennell. Sua Cathy é volúvel, espinhosa e visualmente magnética. Robbie canaliza a energia de uma “garota rica e mimada” com consciência de seu poder de sedução, mas falta à sua interpretação o tormento primal, a conexão quase sobrenatural com Heathcliff que vai além da atração física. Há momentos em que ela parece uma “Barbie de Brontë”, presa não nos sonhos da casa da Mattel, mas nos cenários de um sonho febril que não é inteiramente dela.
Jacob Elordi (Heathcliff), por outro lado, é o ponto mais frágil dessa estrutura. Fisicamente, ele tem a imponência e o mistério necessários, mas sua atuação é excessivamente contida. Elordi entrega um Heathcliff de olhos tristes e pouco interessante, um objeto de desejo pronto para ser consumido, mas que raramente transborda a raiva e a humilhação que definem o personagem. Sua química com Robbie é inegável em termos de puro apelo visual, mas a falta de profundidade transforma o romance em uma coreografia elegante e fria. É uma paixão que não queima a pele; apenas a arrepia.
O alívio e o destaque vêm do elenco de apoio. Alison Oliver, reprisando sua parceria com Fennell de Saltburn, está devidamente perturbadora como Isabella Linton, capturando a transição da ingenuidade para o desespero com uma precisão cirúrgica. Hong Chau, como a criada Nelly Dean, tenta ancorar o caos com uma performance de pura humanidade e cansaço, funcionando como o único fio de sanidade em um mundo de loucos, mas o roteiro a subutiliza, transformando a narradora essencial do livro em uma figurante de luxo. E Martin Clunes, como o Sr. Earnshaw, oferece uma camada de humanidade terrena que falta aos protagonistas, um sopro de realidade em meio ao furacão de estilização.
Direção e Fotografia: A Queda Livre Controlada
Emerald Fennell dirige O Morro dos Ventos Uivantes com a confiança de quem sabe exatamente a polêmica que está causando. Ela usa a câmera como uma ferramenta de sedução, muitas vezes mais interessada nos corpos dos atores do que em suas almas. A decisão de filmar em locações como Knole Park e utilizar a arquitetura imponente não como cenário, mas como extensão do estado mental dos personagens, é acertada.
No entanto, sua direção de atores parece ter priorizado a “pose” em detrimento da “verdade”. Enquanto em Bela Vingança e Saltburn o estilo servia a uma narrativa afiada, aqui a narrativa parece um cabide para o estilo. A fotografia, embora deslumbrante, por vezes beira o comercial de perfume de luxo, sacrificando a sujeira e o desconforto do texto original por uma beleza plástica e polida.
Contexto Temático: Tradição, Modernidade e o Poder da Superfície
O filme de Fennell é um objeto cultural fascinante justamente por suas fraturas. Ele escancara a tensão entre a tradição literária e a modernidade das redes sociais. A escolha de Jacob Elordi, um ícone jovem de Euphoria, para viver Heathcliff, ignorando as descrições originais sobre a possível etnia do personagem, já é uma declaração de intenções: o que importa aqui não é a precisão histórica, mas o poder de hype contemporâneo.
A obra debate, ainda que sem querer, a mercantilização da tragédia. Ao transformar a obsessão destrutiva de Cathy e Heathcliff em um romance “cintilante”, Fennell questiona se o público moderno ainda é capaz de digerir a verdadeira violência emocional ou se prefere a estética da violência. É um filme sobre a moralidade da paixão, mas contado por alguém que parece mais interessada no que essa paixão veste e na trilha sonora que a acompanha. O poder, aqui, reside na superfície — e a superfície, em 2026, é tudo.
O Grito que se Perdeu no Vento
No final, O Morro dos Ventos Uivantes (2026) é menos uma adaptação e mais uma possessão — a possessão de uma diretora contemporânea pelo espírito de uma estética gótica, filtrada pelas ansiedades do século XXI. É um filme que será amado por quem busca a experiência imersiva de um delírio visual e odiado por quem espera encontrar a alma atormentada de Cathy Earnshaw. Fennell cria imagens inesquecíveis, mas as deixa ecoando em um salão vazio. A paixão está lá, mas é uma paixão de mentira, uma “festa de emoções falsas” que entretém, mas não transforma. Portanto, a descrição do filme deveria ser honesta e deixar claro, que é “Sabor Morro dos Ventos Uivantes“, e talvez assim, não ser tão ofensiva com a obra de Brontë.
Nota IMDb: 6.2/10
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