Há um momento, nos primeiros minutos de Tubarão, que define não apenas o filme, mas a carreira de Steven Spielberg e, em certa medida, os cinquenta anos de cinema que se seguiram. Uma garota chamada Chrissie, atraída pelas ondas noturnas de Amity Island, é puxada para debaixo d’água com uma violência tão repentina quanto invisível. Não vemos o monstro. Não sabemos o que é. Apenas ouvimos seus gritos, sentimos seu corpo sendo arrastado como um brinquedo, e testemunhamos o mar se acalmando novamente, indiferente, cúmplice. Quando o filme estreou em 20 de junho de 1975, o público saiu dos cinemas carregando uma certeza nova e aterrorizante: o oceano, aquele lugar de férias, de verão, de inocência, escondia algo. E esse algo queria nos devorar.
Meio século depois, Tubarão não é apenas o filme que inventou o blockbuster de verão, nem apenas a obra-prima precoce de um diretor de 26 anos que não sabia nadar direito. É um monumento à ansiedade americana, uma fábula sobre o preço da ganância, um estudo de personagem disfarçado de filme de monstro e, acima de tudo, uma prova irrefutável de que o que não vemos na tela é sempre mais aterrorizante do que qualquer efeito especial poderia criar. Como Spielberg mesmo descobriria durante aquela produção infernal em Martha’s Vineyard, o fracasso do seu tubarão mecânico seria a sua maior vitória.
A Anatomia do Medo: Por Que o Invisível é Sempre Mais Terrível
A genialidade fundamental de Tubarão reside numa equação simples, mas revolucionária: quanto menos se vê o monstro, mais real ele se torna na imaginação do espectador. Inspirado pela máxima de Hitchcock sobre suspense versus surpresa — “o que importa não é a bomba que explode, mas a bomba que está embaixo da mesa sem explodir” — Spielberg construiu um filme onde o tubarão é uma presença sentida, raramente testemunhada.
Os primeiros 80 minutos de projeção são um exercício magistral de contenção narrativa. O tubarão é sugerido por suas vítimas, pelas marcas de dentes nos cascos dos barcos, pelo olhar vidrado de Roy Scheider ao ler livros de biologia marinha, pela água que sobe e desce num ritmo que John Williams transformou em dois acordes inesquecíveis. Quando finalmente vemos a criatura — aquele close abrupto do olho negro emergindo da popa do Orca — o choque é catártico precisamente porque fomos obrigados a esperar tanto.
A crítica original do Guardian, em 1975, capturou essa percepção com elegância: “A ameaça do que você não pode ver é muito mais preocupante do que o medo do que você pode ver — especialmente se for provável que surja da água e morda você entre as pernas”. Spielberg, o prodígio que aprendera as lições dos mestres, entendia que o cérebro humano é o melhor departamento de efeitos especiais que existe.
Virtudes e Fraturas: A Obra-Prima Acidental
É impossível discutir Tubarão sem reconhecer o papel do acaso — ou do desastre — em sua perfeição final. O malfadado tubarão mecânico, apelidado carinhosamente de “Bruce” pela equipe em homenagem ao advogado de Spielberg, foi um pesadelo de engenharia. Construído para suportar a água salgada, ele afundava, emperrava, explodia e se recusava a cooperar.
O que poderia ter sido o epitáfio da carreira de um jovem diretor tornou-se o alicerce de sua estética. Impossibilitado de mostrar o monstro, Spielberg foi forçado a filmá-lo por sugestão, por fragmentos, por consequências. O resultado é que Tubarão funciona não como um filme de criatura, mas como um thriller psicológico de primeira grandeza. A sequência em que o pedaço do cais é arrastado mar adentro, ou aquela em que o barril amarelo emerge e começa a se mover contra a corrente — são momentos de suspense puro, construídos sobre a ausência do antagonista.
As virtudes são inúmeras: a montagem de Verna Fields, que ganhou o Oscar e cujo instinto salvou o filme na sala de edição; a fotografia de Bill Butler, que transforma a superfície calma do mar numa cortina sobre o abismo; o roteiro, que equilibra com perfeição o drama político da primeira metade com a aventura homérica da segunda.
Os defeitos, quando existem, são perdoáveis e frequentemente adoráveis. Sim, o tubarão mecânico parece, em alguns planos, exatamente o que é — um boneco de borracha com dentes de plástico. A cena em que Bruce engole Quint, com o sangue jorrando em profusão, carrega um exagero quase caricatural. Há quem aponte inconsistências no comportamento do animal — como ele consegue seguir o barco até águas tão rasas? — mas essas objeções dissipam-se diante da força avassaladora da experiência.
Elenco e Atuações: A Química do Conflito
Se o tubarão é o coração mecânico do filme, o trio a bordo do Orca é sua alma pulsante. Spielberg teve o bom senso de escalar não estrelas convencionais, mas atores de teatro com presença física e densidade psicológica — e depois permitiu que eles se odiassem em frente às câmeras.
Roy Scheider como Martin Brody: O xerife com medo de água é o ponto de identificação do público. Scheider interpreta Brody como um homem comum confrontado com o extraordinário — seu rosto permanentemente suado, seus olhos arregalados, sua frustração diante da inércia da prefeitura. É uma atuação construída sobre reações, não sobre ações. Quando ele murmura a frase que entraria para a história — “Vai precisar de um barco maior” — ele não está citando um bordão, está improvisando um desabafo.
Robert Shaw como Quint: Shaw, um dramaturgo e ator shakespeariano de talento feroz, trouxe para Quint uma camada de tragédia que o roteiro original não previa. Seu Quint é um sobrevivente do USS Indianapolis, assombrado pelos corpos que viu serem devorados durante a Segunda Guerra, e sua caçada ao tubarão é também uma tentativa de exorcizar demônios. O monólogo sobre o Indianapolis — reescrito por Shaw e pelo roteirista John Milius — é o auge do filme, um momento de cinema puro onde a caçada vira metáfora e o monstro marinho, uma consequência da hybris humana.
Richard Dreyfuss como Matt Hooper: O jovem oceanógrafo rico e idealista representa a ciência contra a tradição, o conhecimento contra a superstição. Dreyfuss, na época com 27 anos, injeta no personagem uma energia nervosa que contrasta perfeitamente com o cinismo cansado de Shaw. Fora das telas, a rivalidade era real: Shaw considerava Dreyfuss um “punk arrogante” e, momentos antes das filmagens, sussurrava em seu ouvido: “Cuidado com os trejeitos”.
Murray Hamilton como o Prefeito Vaughn: O verdadeiro vilão do filme não é o tubarão, mas o prefeito de Amity. Hamilton interpreta Vaughn não como um monstro, mas como um burocrata míope, preocupado com o faturamento do feriado de 4 de Julho. Sua frase — “Amity, como você sabe, significa amizade” — é dita com tal convicção que quase esquecemos que ele está condenando seus eleitores à morte.
Contexto Temático: A América Pós-Vietnã Encontra seu Monstro
Tubarão chegou aos cinemas num momento de profunda desilusão americana. O país emergia do trauma do Vietnã, do escândalo Watergate e de uma recessão econômica que corroía a confiança no futuro. Os filmes-catástrofe dos anos 70 — A Aventura do Poseidon, Inferno na Torre — ofereciam uma fantasia de redenção coletiva: se seguíssemos os heróis certos, sobreviveríamos ao desastre.
Tubarão opera na mesma chave, mas com uma diferença crucial: o desastre aqui não é um acidente, mas uma consequência direta da ganância e da incompetência humana. O prefeito Vaughn, com seus ternos berrantes e sua retórica vazia, é um pequeno Nixon. Os empresários de Amity que se recusam a fechar as praias são a personificação do capitalismo predatório que antepõe o lucro à vida. O tubarão, nessa leitura, não é um agente da natureza, mas uma força de correção moral — o retorno do reprimido numa América que tentava esquecer seus pecados.
Uma das cenas mais pungentes do filme é o encontro de Brody com a mãe de Alex Kintner, o menino devorado na praia. A mulher, de rosto velado, dá um tapa no xerife e murmura: “É uma pena”. O crítico Roger Ebert viu ali uma ressonância direta com as mães que perderam filhos no Vietnã — cidadãs comuns confrontadas com a cumplicidade silenciosa de suas comunidades na tragédia.
A análise mais ambiciosa do filme vai além: o monólogo do USS Indianapolis — o cruzador que entregou a bomba atômica e foi afundado por tubarões — é lido como uma metáfora da culpa nuclear americana. “De qualquer forma, entregamos a Bomba”, diz Quint, conectando o horror da guerra ao horror natural, sugerindo que o tubarão é a vingança da natureza pelo pecado original de Hiroshima.
Direção e Fotografia: A Câmera Como Presa
Spielberg, aos 26 anos, já demonstrava um domínio da linguagem cinematográfica que poucos diretores atingem numa vida inteira. Sua câmera em Tubarão é ativa, quase personificada — ela desliza sobre a água como um predador à espreita, aproxima-se lentamente dos banhistas desavisados, posiciona-se sob a superfície para nos lembrar de que, ali embaixo, algo nos observa.
A famosa técnica do dolly zoom — quando Brody, na praia, vê o ataque e a câmera parece distorcer o espaço ao seu redor — foi emprestada de Hitchcock (que a usara em Um Corpo que Cai), mas Spielberg a emprega com uma urgência emocional que a torna definitiva. O rosto de Scheider, congelado no centro do quadro enquanto o fundo se estica e comprime, é a imagem perfeita do terror paralisante.
A fotografia de Bill Butler explora o contraste entre a luz ofuscante das praias de Amity e a escuridão impenetrável do oceano noturno. Há uma cena, quando o Orca parte para o mar, em que a câmera enquadra o barco através da mandíbula de um tubarão pendurada no galpão de Quint — um presságio visual que poucos espectadores captam na primeira vez, mas que reverbera inconscientemente.
John Williams e a Música que Virou Ameaça
Nenhuma análise de Tubarão estaria completa sem reconhecer a dívida impagável com John Williams. A partitura do compositor não é apenas memorável; é funcionalmente perfeita. Aquelas duas notas — um intervalo de meio tom, o mais próximo e tenso da música ocidental — repetem-se com urgência crescente, criando uma expectativa quase insuportável.
Williams descrevia sua composição como “uma broca de dentista subindo a escada”. Spielberg, ao ouvir pela primeira vez, riu: “John, está brincando, não é? Com duas notas?” Mas ao inserir a música na cena de abertura, o diretor percebeu que o filme havia se tornado algo maior do que a soma de suas partes. A música de Williams substitui o monstro. Quando ouvimos as duas notas, sentimos o tubarão antes de vê-lo. É uma sinestesia do medo.
O filme venceu o Oscar de Trilha Sonora, e a Academia, numa rara demonstração de sabedoria, também premiou a Montagem e o Som — reconhecendo que Tubarão era, antes de tudo, uma obra de artesanato técnico e artístico.
Bastidores: A Produção que Quase Afundou
A realização de Tubarão entrou para a lenda como um exemplo de cinema às avessas:
O Tubarão que Não Funcionava: O “Bruce” original custou US$ 250 mil e exigia uma equipe de 14 pessoas para operar. Em água salgada, sua pele de borracha inchava, seus motores queimavam e seu corpo afundava. Spielberg passou a chamá-lo de “O Grande Tubarão Branco e Leitoso”, numa referência ao leite que ele parecia beber nas profundezas.
A Escalação que Poderia Ter Sido Outra: Antes de Scheider, Dreyfuss e Shaw, os estúdios cogitaram nomes como Charlton Heston (Brody), Sterling Hayden e Lee Marvin (Quint), e Jon Voight (Hooper). Peter Benchley, autor do livro, sonhava com Paul Newman, Robert Redford e Steve McQueen — o que teria transformado o filme numa produção completamente diferente, provavelmente pior.
O Monólogo que Veio de Fora: O discurso do USS Indianapolis foi escrito por John Milius, roteirista não creditado que mais tarde dirigiria O Grande Segunda-Feira. Shaw, insatisfeito com o texto original, reescreveu boa parte da cena, incluindo a linha final: “Trezentos homens desapareceram na água. Eram 1.100. Depois de cinco dias, os pilotos nos encontraram. Eles nos salvaram. E nunca mais reclamei”.
O Final que Poderia Ser Outro: No livro de Benchley, Quint morre enredado nas cordas do arpão e arrastado para o fundo — morte passiva, quase burocrática. Spielberg optou por uma morte espetacular, com o tubarão devorando o caçador em câmera lenta, sangue jorrando, dentes cravados. Foi a primeira grande licença poética do diretor em relação ao material original.
Versões e Legado: O Monstro que Não Envelhece
Ao longo dos anos, Tubarão foi relançado em diversas versões remasterizadas, incluindo edições em Blu-ray e 4K que restauram as cores originais e o som em Dolby Atmos. Diferentemente de outros clássicos, porém, nunca houve uma “Edição do Diretor” significativamente alterada — Spielberg sempre defendeu que o corte original de 1975 é o definitivo.
O legado do filme é ambivalente. Por um lado, ele redefiniu o marketing cinematográfico e estabeleceu o modelo do blockbuster de verão, com lançamento maciço em milhares de salas e campanhas publicitárias nacionais. Por outro, sua representação dos tubarões como “máquinas de matar” causou danos reais à percepção pública da espécie, contribuindo para décadas de caça predatória e declínio populacional.
Mas como obra de arte, Tubarão permanece intocado. O crítico Roger Ebert, ao revisitar o filme em 2000, resumiu seu poder: “Spielberg mantém o tubarão fora da mesa durante a maior parte do filme. E muitas de suas manifestações na parte final são indiretas: não vemos o tubarão, mas os resultados de suas ações. O resultado é um dos thrillers mais eficazes já feitos”.
O Barco Segue Navegando
Com seus Cinquenta completados em 2025, Tubarão continua sendo uma experiência visceral. Não porque seu tubarão assuste — ele não assusta mais, pelo menos não da mesma forma. Mas porque o filme nos lembra de algo fundamental sobre a condição humana: nossa fragilidade diante do desconhecido, nossa tendência a negar o perigo em nome do conforto, nossa capacidade de encontrar coragem nos momentos mais improváveis.
O trio a bordo do Orca — o xerife medroso, o cientista ingênuo, o caçador atormentado — é uma metáfora da América tentando se reconciliar consigo mesma. E o mar, aquele imenso desconhecido, continua lá fora, esperando.
Quando Brody, no final, atira no tanque de ar comprimido na boca do tubarão e a criatura explode numa bola de sangue e óleo, o público aplaude não apenas a vitória, mas a catarse de ter enfrentado o medo e sobrevivido. A última imagem — Brody e Hooper remando de volta à costa, abraçados a um pedaço de madeira, o mar calmo ao redor — é tão poderosa quanto a abertura. O perigo passou. Mas nunca esqueceremos que ele esteve ali.
Tubarão não é apenas o filme que reinventou o verão. É o filme que nos fez temer a água. E, ao nos fazer temer, nos ensinou algo sobre nós mesmos — sobre como reagimos quando o que amamos está ameaçado, sobre como nos unimos ou nos destruímos diante do perigo, sobre como, no fim, o que realmente importa é a capacidade de seguir em frente, mesmo sabendo que o monstro pode estar apenas esperando a próxima maré.
Nota IMDb: 8.1/10
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