A busca obsessiva pela perfeição transforma-se em pesadelo contagioso em The Beauty: Lindos de Morrer, a mais nova e perturbadora incursão de Ryan Murphy para o FX. Nos três primeiros episódios, disponíveis no Disney+, o glamour dos desfiles de Paris dá lugar a corpos que implodem literalmente, iniciando uma investigação que expõe uma conspiração global onde a beleza é a droga mais letal e desejada. A série se estabelece como um thriller de horror biológico que, abandonando a sutileza, crava suas metáforas na carne do espectador, questionando o preço físico e social que pagamos por um ideal inatingível.
Narrativa: Um Thriller Viral de Ritmo Inconstante
A premissa de The Beauty é eficaz e imediata: supermodelos começam a morrer de formas grotescas e publicamente espetaculares, levando os agentes do FBI Cooper Madsen (Evan Peters) e Jordan Bennett (Rebecca Hall) a Paris. A virtude principal da narrativa nos episódios iniciais é a sua ambição temática. A descoberta de que as mortes estão ligadas a “A Beleza” (The Beauty), uma droga/vírus de transmissão sexual que reconfigura o corpo para uma perfeição plástica com data de validade fatal, é uma ideia potente. A série funciona melhor quando esta metáfora – a beleza como epidemia, a auto-destruição em nome do padrão – guia a trama, criando sequências de body horror visceralmente desconfortáveis.
No entanto, o ritmo sofre com a dupla vocação da série. Enquanto tenta ser um procedural internacional de investigação, com os agentes correndo entre capitais da moda, também carrega o peso de seu comentário social grandiloquente. Essa tensão resulta em alguns momentos de exposição didática, onde personagens explicam o óbvio tema da série, e em cortes bruscos para subtramas, como a do desesperado Jeremy (Jeremy Pope), que ainda não encontraram total sintonia com a trama principal. É uma narrativa que promete mais do que entrega nos primeiros 4 episódios, mas que deixa os fios bem amarrados para uma explosão subsequente.
Elenco e Atuações: Corpos que Carregam a Crítica
O elenco de The Beauty é escolhido com precisão cirúrgica para reforçar o tema. Evan Peters como Cooper Madsen é a âncora emocional. Longe de seus personagens mais extravagantes, Peters traz uma vulnerabilidade contida e uma frustração crescente que humanizam o caos ao seu redor. Rebecca Hall, como Jordan Bennett, é seu perfeito contraponto intelectual. Hall confere à agente uma serenidade analítica e uma frieza que esconde uma repulsa moral profunda, tornando-a a consciência lógica da dupla.
As figuras antagônicas são igualmente bem concebidas. Ashton Kutcher surge como “A Corporação”, o bilionário de tecnologia por trás da droga. Kutcher utiliza sua persona de startupper bem-sucedido para criar uma vilania moderna e assustadoramente plausível: um capitalista que vende salvação estética com a frieza de quem lança um novo app. Do outro lado da moeda, Anthony Ramos como “O Assassino” é pura ameaça física. Sua presença silenciosa e movimentos precisos personificam a violência necessária para sustentar todo aquele sistema de aparências.
As participações especiais funcionam como camadas de comentário. A presença de Isabella Rossellini não é meramente decorativa; é um contraponto ético vivo. Sua trajetória real – ex-modelo e face de grife afastada pela idade – dá peso dramático à sua personagem, que observa a epidemia com um ceticismo doloroso. Figuras como Bella Hadid e Meghan Trainor, ao se interpretarem em contextos ficcionais, borram as fronteiras entre a crítica da série e a realidade da indústria que ela espelha.
Direção e Produção: A Estética do Colapso
A assinatura visual de Ryan Murphy em The Beauty é inconfundível. A direção opta pelo excesso calculado: os cenários de luxo (hotéis em Veneza, ateliers em Paris) são iluminados com uma frieza clínica, que logo se contamina com a podridão do horror corporal. A fotografia contrasta o brilho artificial das passarelas com a escuridão sangrenta dos crimes, criando uma paleta onde a beleza e a decomposição são duas faces da mesma moeda.
Os efeitos especiais de body horror são o grande trunfo técnico. As cenas de transformação e implosão corporal são tão elaboradas quanto repulsivas, recusando-se a ser metafóricas para se tornarem literais. O design de som amplifica isso, misturando os suspiros da moda com estalos ósseos e ruídos orgânicos perturbadores. A produção, portanto, não serve apenas ao espetáculo, mas é parte integral da tese da série: em The Beauty, a violência é estética e a estética é violenta.
Temas: A Epidemia da Inadequação
The Beauty: Lindos de Morrer é, acima de tudo, um espelho distorcido do nosso tempo. Seu contexto temático principal é a medicalização e comercialização do corpo como projeto permanente. A série vai além da crítica superficial à indústria da beleza e aponta para um sistema econômico transnacional que lucra com o sentimento permanente de inadequação. A “beleza” aqui não é um atributo, mas um produto tecnológico, um vírus que se espalha pelos contatos mais íntimos, transformando o desejo individual em patologia social contagiosa.
Os conflitos entre tradição (a beleza “natural”, representada por Rossellini) e modernidade (a correção tecnológica, encarnada por Kutcher) são centrais. A moralidade é posta em xeque quando a busca por aceitação e validação – impulsos humanos legítimos – é canalizada para um mecanismo de autodestruição. O poder é exercido não apenas pela força bruta (Ramos), mas pelo controle do desejo e da narrativa do que é ser desejável.
Uma Fábula Brutal para a Era da Auto-Otimização
The Beauty: Lindos de Morrer não é uma série sutil, mas sua falta de sutileza é sua força. Nos primeiros quatro episódios, Ryan Murphy e sua equipe constroem uma fábula brutal e visualmente hipnótica sobre os horrores que normalizamos em nome da perfeição. Embora sofra com algumas inconstâncias de ritmo e uma exposição temática às vezes excessiva, a potência de sua premissa, a qualidade do elenco e a ousadia de sua execução técnica a tornam uma experiência incontornável. É mais do que um thriller sobrenatural; é um diagnóstico angustiante e visceral de uma doença social que já estamos todos infectados.
Nota do IMDb: 8.5/10
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