Em um mundo já morto, a maior ameaça nunca foram os zumbis. Essa é a premissa perturbadora que Nia DaCosta abraça em Extermínio: O Templo dos Ossos, quarto capítulo da franquia iniciada por Danny Boyle. Longe de ser um simples festival de gore, o filme é um estudo de caráter claustrofóbico, onde a infecção viral dá lugar à contaminação ideológica. Ambientado logo após os eventos de Extermínio: A Evolução (2025), acompanhamos a frágil humanidade sendo posta à prova entre a ciência desesperada de um médico e o fanatismo cruel de um culto. É uma obra que prioriza a atmosfera de desespero sobre os jump scares, questionando se, no fim de tudo, ainda vale a pena salvar uma espécie que insiste em se autodestruir.
Um Mundo em Decomposição: Direção e Atmosfera
Nia DaCosta, assumindo o leme de uma das franquias de terror mais respeitadas, faz uma escolha ousada: desacelerar. Se os filmes anteriores eram marcados por correrias frenéticas, Extermínio: O Templo dos Ossos é um pesadelo lento e ruminante. A direção de DaCosta é claustrofóbica, usando planos fechados e uma paleta de cores terrosa e podre que traduz visualmente a decadência do mundo e da alma dos personagens. A fotografia de Sean Bobbitt (12 Anos de Escravidão) é um personagem por si só, contrastando a escuridão opressora dos esconderijos dos Jimmies com a luz crua e desoladora das paisagens externas, onde nenhum lugar é seguro.
A trilha sonora assinada por Hildur Guðnadóttir é um exercício de ansiedade. Em vez de orquestrações grandiosas, prevalecem drones baixos, ruídos ambientais distorcidos e silêncios que cortam como facas. A famosa cena da dança do Dr. Kelson ao som de Iron Maiden, amplamente comentada, é um momento de libertação delirante e, ao mesmo tempo, um contraponto tragicômico ao horror absoluto, mostrando a fineza tonal que DaCosta consegue equilibrar.
O Confronto entre a Cruz e o Microscópio: Narrativa e Temas
O roteiro de Alex Garland segue duas linhas narrativas que convergem para um conflito inevitável. De um lado, o jovem Spike (Alfie Williams) é coagido a se juntar aos Jimmies, uma seita liderada pelo carismático e psicótico Sir Jimmy Crystal (Jack O’Connell). Inspirados na figura nefasta de Jimmy Savile, os Jimmies acreditam que o apocalipse zumbi é uma punição divina e que seus atos de extrema violência são um ritual de purificação. Do outro lado, o Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes), um cientista pragmaticamente aterrorizado, conduz um experimento arriscado: estabelecer uma conexão com Sansão (Chi Lewis-Parry), um infectado alfa, na tentativa de entender – e talvez curar – a doença.
Aqui, Garland afia suas facas críticas. O verdadeiro horror não está nos infectados, criaturas de fúria primitiva, mas no fanatismo calculado de Jimmy Crystal. Ele é a face do capitalismo de desastre aplicado à fé, um líder que usa o medo do fim do mundo para consolidar poder, manipular e justificar atrocidades. Seu embate com o Dr. Kelson vai além do bem contra o mal; é o choque entre duas formas de explicar o caos: a religião distorcida e a ciência desesperada. Extermínio: O Templo dos Ossos sugere que, em um colapso total, a racionalidade pode ser tão frágil quanto um osso, e a barbárie, sedutoramente lógica.
Elenco e Atuações: Humanidade sob Pressão Extrema
O filme é sustentado por performances poderosas que dão carne e osso a esse mundo esquelético.
Ralph Fiennes como Dr. Ian Kelson: Fiennes entrega uma atuação magistral de exaustão contida. Seu Kelson é um farol de razão que começa a piscar. A genialidade do ator está nos pequenos gestos: o tremor nas mãos ao preparar uma injeção, o olhar de espanto comovedor diante de um lampejo de consciência no rosto de Sansão. Ele é a alma cansada da franquia.
Jack O’Connell como Sir Jimmy Crystal: O’Connell é eletrizante e aterrador. Ele constrói um vilão que é, acima de tudo, um showman do apocalipse. Sua energia é contagiosa, seu carisma perverso, e isso torna sua crueldade ainda mais assustadora. É uma performance que evita a caricatura, mostrando a lógica distorcida e a vulnerabilidade patética por trás do monstro.
Alfie Williams como Spike: Williams transita com credibilidade da ingenuidade ao trauma. Spike é o ponto de vista do espectador no núcleo dos Jimmies, e sua jornada silenciosa de horror é palpável.
Chi Lewis-Parry como Sansão: Com uma presença quase totalmente física e silenciosa, Lewis-Parry realiza um feito notável. Através de grunhidos, da postura e, sobretudo, dos olhos, ele consegue transmitir uma luta interna, um resquício de humanidade preso numa jaula de fúria, tornando-o a figura mais trágica do filme.
Virtudes e Defeitos: Os Ossos da Obra
Virtudes:
Atmosfera Imersiva: A construção de mundo é densa e sufocante. Você não apenas assiste ao filme, você sente o cheiro de podridão e desespero.
Atuações de Altíssimo Nível: O trio principal (Fiennes, O’Connell, Lewis-Parry) eleva o material, criando cenas de confronto que são aulas de interpretação.
Ambição Temática: A decisão de focar no fanatismo e na deterioração moral, em vez da ação zumbi convencional, é corajosa e rende uma reflexão amarga e pertinente.
Defeitos:
Ritmo Irregular: A opção pelo slow burn pode testar a paciência de fãs do terror mais dinâmico da franquia. Algumas sequências no acampamento dos Jimmies se estendem além do necessário.
Personagens Coadjuvantes Subutilizados: Figuras como os outros Jimmies (Erin Kellyman, Connor Newall) funcionam mais como extensões do terror de Crystal do que como indivíduos com arcos próprios, perdendo potencial narrativo.
Um Terceiro Ato um Pouco Previsível: A colisão final entre as duas facções, ainda que visceralmente filmada, segue um caminho um pouco mais convencional se comparado à complexidade psicológica do restante do filme.
Um Templo Construído com Ossos e Ideias
Extermínio: O Templo dos Ossos não é um filme fácil. É um trabalho intencionalmente áspero, lento e pessimista que pode afastar quem busca a adrenalina dos capítulos anteriores. No entanto, é justamente essa recusa em seguir fórmulas que o torna uma sequência digna e necessária. Nia DaCosta e Alex Garland usam o pano de fundo do apocalipse zumbi para escavar questões profundas e urgentes sobre poder, fé cega e os limites da humanidade.
É um filme que ressoa muito além da sala de cinema, deixando uma sensação residual de inquietação. Questiona se, diante do colapso, nossa herança maior será a compaixão ou a crueldade, a razão ou o dogma. No templo construído com os ossos do mundo que foi, a obra de DaCosta sugere que o monstro final nunca foi o vírus, mas o que ele revelou dentro de nós.
Nota do IMDb: 7.8/10
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