Em um sótão abafado de Miami, um achado de rotina transforma-se no pesadelo de uma vida: 20 milhões de dólares em dinheiro vivo. Este é o gatilho que Joe Carnahan (Fogo Cruzado) usa para dissecar a podridão moral em Dinheiro Suspeito (The Rip), um thriller policial que troca tiroteios espetaculares por uma tensão visceral e claustrofóbica. Com Matt Damon e Ben Affleck à frente, o filme é um estudo de personagens onde o verdadeiro crime não é o roubo, mas a lenta e irreversível corrosão da confiança. Mais do que uma caça ao tesouro, é um mergulho angustiante na psicologia da ganância, onde cada olhar de soslaio e cada pausa em um diálogo carregam o peso de uma traição em potencial.
Um Elenco no Auge da Química e do Ofício
O coração pulsante de Dinheiro Suspeito bate graças ao seu elenco excepcional, liderado pela dupla dinâmica de Hollywood. A química entre Matt Damon e Ben Affleck, cultivada em décadas de amizade e colaboração, transcende a tela e fornece a espinha dorsal emocional do filme. Desta vez, porém, a sintonia é usada para fins mais sinistros.
Matt Damon como o Tenente Dane Dumars: Damon abraça uma rara nuance antagonista. Seu Dumars é agressivo, calculista e carismático, um líder cujas motivações permanecem envoltas em névoa até o desfecho. O ator conduz magistralmente o público por um labirinto de dúvidas, fazendo-nos questionar se ele é um herói corrompido pelas circunstâncias ou o arquiteto de um plano maquiavélico. É uma performance que se sustenta em subtilezas — um sorriso contido, uma ordem dada com frieza excessiva — e que demonstra todo o seu calibre dramático.
Ben Affleck como o Sargento J.D. Byrne: Affleck encarna o polo oposto, o policial rebelde e visceral cujas emoções estão sempre à flor da pele. Enquanto Damon arquiteta, Affleck reage com uma intensidade crua que lembra seus melhores trabalhos no gênero. Sua persona de “homem durão” é, no entanto, permeada por uma vulnerabilidade que torna Byrne o ponto de ancoragem emocional para o espectador. A dinâmica entre os dois é eletrizante: aliados em um instante, adversários no seguinte, em uma dança de desconfiança que é o motor narrativo do filme.
O filme não se apoia apenas em seus astros. O elenco de apoio é um luxo, com destaque para Kyle Chandler como um agente da DEA intimidante e carismático, que rouba cenas com presença de tela avassaladora. Teyana Taylor e Steven Yeun trazem profundidade e credibilidade a seus papéis de detetives, mesmo com tempo limitado de tela, enquanto Sasha Calle e Catalina Sandino Moreno completam o quadro com performances sólidas.
Direção e Fotografia: A Tensão do Confinamento
Joe Carnahan, também responsável pelo roteiro, opta por uma abordagem contida. Ao contrário de Fogo Cruzado ou A Perseguição, a ação explosiva de Dinheiro Suspeito é dosada e pontual. Seu foco está em criar uma atmosfera de paranoia crescente. O filme se passa majoritariamente em locações internas e claustrofóbicas — o porão abarrotado, salas de interrogatório, corredores de esquadrão —, uma escolha estilística que reflete a prisão psicológica em que os personagens se metem.
Aqui reside, porém, uma das principais dicotomias do filme. Enquanto a direção de atores e a construção de suspense são primorosas, alguns elementos técnicos vacilam. A fotografia de Juanmi Azpiroz é competente, mas frequentemente genérica, não criando uma identidade visual marcante para Miami ou para a trama. Pior são as cenas de ação, que sofrem com um excesso de câmera tremida e montagem frenética, resultando em sequências confusas e visualmente cansativas que quebram a tensão meticulosamente construída. É como se o filme, em momentos chave, duvidasse de sua própria força — que está no drama humano — e recorresse a uma linguagem de ação convencional e pouco inspirada.
Narrativa: O Peso da Desconfiança e a Fragilidade do Roteiro
A premissa é um trunfo poderoso: o que você faria com uma fortuna que ninguém oficialmente sabe que existe? Carnahan explora com habilidade essa questão moral, mostrando como a ganância não é um monstro que surge do nada, mas uma serpente que se insinua através de racionalizações — dívidas, salários baixos, um sistema que parece não merecer lealdade. O roteiro é eficiente em manter o espectador em constante estado de alerta, distribuindo suspeitas de forma equânime entre os personagens. O desfecho, em especial, é satisfatório e bem amarrado, oferecendo uma reviravolta que recontextualiza ações anteriores sem trair a lógica da história.
Contudo, a narrativa não está imune a falhas. O ritmo, às vezes, pende para a irregularidade, com um primeiro ato que pode parecer lento para alguns. O maior pecado, no entanto, é o didatismo em certos diálogos. Falas como “não confie em ninguém” soam redundantes em um filme cuja essência é justamente a desconfiança não verbal. Em outro momento, a explicação forçada de uma sigla entre policiais soa como um expositor artificial para o público, quebrando a verossimilhança. São escolhas que subestimam a inteligência do espectador e mancham a textura geral, mais sutil, do drama.
Temática: O Verdadeiro Vilão é Verde e Cheira a Tinta Nova
Para além do suspense policial, Dinheiro Suspeito funciona como um espelho sóbrio para questões contemporâneas. O diretor Joe Carnahan afirmou que vê o dinheiro como o grande vilão da história, uma força corrosiva que expõe o caráter (ou a falta dele) dos indivíduos. O filme não julga de forma maniqueísta; em vez disso, mostra como a ética profissional pode ser flexibilizada quando confrontada com uma quantia que promete resolver todos os problemas da vida.
Os temas de poder e corrupção são explorados não apenas no âmbito individual, mas também institucional. Há uma crítica subjacente à burocracia e à falta de recursos das forças policiais, terreno fértil para justificativas morais dúbias. Em última análise, a tradição do dever e da honra policial entra em conflito direto com a modernidade de um mundo guiado por ganância material e descrença nas estruturas — uma batalha interna que cada personagem trava, com resultados devastadores.
Veredito Final: Uma Experiência de Suspense que Resiste à Corrosão do Tempo?
Dinheiro Suspeito não redefine o gênero policial. Suas cenas de ação são medianas e seu visual carece de ousadia. No entanto, onde ele verdadeiramente brilha — e isso é crucial — é em seu núcleo dramático. É um filme sobre o preço da confiança e a facilidade com que ela se quebra, elevado por atuações de altíssimo nível, especialmente da dupla protagonista. A tensão que Carnahan constrói a partir dos olhares, dos silêncios e da química deteriorada entre personagens é palpável e muito mais memorável do que qualquer perseguição de carro.
Recomendado para fãs de thrillers psicológicos e, sobretudo, para aqueles que apreciam o ofício da atuação. É um testemunho de que, às vezes, o conflito mais eletrizante não ocorre entre heróis e vilões, mas dentro da mente daqueles que não sabem mais distinguir entre os dois.
Nota IMDb: 6.8/10
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