Nuremberg, dirigido por James Vanderbilt, não é um simples registro histórico dos julgamentos do pós-guerra. O filme assume a forma de um thriller psicológico claustrofóbico, transferindo o campo de batalha do tribunal para os espaços confinados de uma cela, onde um psiquiatra americano e o arquiteto do terror nazista travam um duelo perigoso pela definição da própria humanidade. Esta é uma história menos sobre o veredito da história e mais sobre o abismo que se abre quando tentamos entender a natureza do mal que a protagoniza.
O Duelo Psicológico: Virtudes e Defeitos de uma Narrativa Ambiciosa
A grande virtude de Nuremberg reside em sua premissa focada. Vanderbilt opta por não fazer um painel panorâmico do julgamento, mas sim um estudo de caracteres em contraposição radical. A narrativa se concentra na relação complexa e perturbadora entre o psiquiatra militar Major Douglas Kelley e o prisioneiro Hermann Göring. Essa escolha cria uma tensão magnética e íntima, sustentada por diálogos que são verdadeiros jogos de xadrez verbais. A obsessão de Kelley em diagnosticar uma patologia, uma “insanidade” que explique o horror, esbarra na fria e charmosa racionalidade de Göring, resultando em um inquietante questionamento sobre onde termina a curiosidade científica e começa a fascinação mórbida.
No entanto, essa abordagem intimista também gera os principais pontos de tensão na estrutura do filme. Com uma duração que beira as duas horas e meia, o ritmo por vezes oscila. Enquanto as cenas na cela são eletrizantes, a transição para as sequências do tribunal, embora necessárias, pode parecer desconectada do núcleo emocional principal. Algumas subtramas, como os esforços do procurador Robert H. Jackson para montar a acusação, são introduzidas mas não totalmente integradas ao duelo central, dando a sensação de um filme que, em momentos pontuais, hesita entre ser um thriller psicológico e um drama jurídico tradicional. O uso de footage documental real dos campos de concentração, por mais impactante e moralmente justificável que seja, é um recurso tão poderoso que redefine abruptamente o tom do filme, quase quebrando a delicada teia psicológica que foi construída até então.
Elenco e Personagens: A Humanidade como Máscara e Abismo
Nuremberg vive e respira por meio de suas atuações centrais, que são, em conjunto, sua maior força.
Russell Crowe como Hermann Göring: Crowe oferece uma atuação magistral, evitando a caricatura do monstro para entregar a complexidade de um tirano convincente. Seu Göring é carismático, intelectualmente ágil, vaidoso e profundamente manipulador. Crowe consegue o feito perigoso de fazer o espectador, por um instante, entender a lógica distorcida do personagem, apenas para lembrá-lo, com um olhar ou uma frase, da frieza absoluta que habita por trás daquela fachada. É a performance de um homem que acredita piamente em sua própria mitologia, e isso o torna infinitamente mais aterrador do que um simples lunático.
Rami Malek como Douglas Kelley: Malek enfrenta o desafio de ser nosso ponto de entrada, um homem cuja confiança acadêmica é gradualmente corroída. Sua atuação é intensa e física, transmitindo a agitação interna de Kelley através de olhares penetrantes e uma postura que vai da arrogância inicial para uma vulnerabilidade desesperada. A jornada de Kelley não é heroica; é uma descida às trevas da compreensão humana. A química entre Malek e Crowe é palpável e desconfortável, essencial para a credibilidade da trama.
O elenco de apoio, repleto de talentos, preenche o mundo ao redor desse duelo com presenças marcantes. Michael Shannon traz uma solenidade contida e uma integridade fatigada a Robert Jackson, ancorando o lado procedural do filme. Em contraste, Richard E. Grant, como o advogado britânico Sir David Maxwell Fyfe, rouba a cena em sua atuação no tribunal com uma ferocidade intelectual e precisão devastadoras. Já Leo Woodall, no papel silencioso mas fundamental do intérprete Howard Triest, personifica com um olhar e gestos mínimos o custo humano real e pessoal daquela máquina de horror, oferecendo a reflexão moral mais comovente do filme.
Direção e Contexto Temático: O Mal como Escolha, não como Doença
A direção de James Vanderbilt é eficiente e focada, priorizando os rostos e os diálogos. Sua maior contribuição talvez seja a coragem de explorar o tema central do filme: a banalidade e a normalidade do mal. Nuremberg não busca monstros sobrenaturais; ele nos confronta com homens funcionais, inteligentes e, em seus próprios termos, lógicos. A grande revelação terrível que atormenta Kelley (e o espectador) é que não há uma patologia clara que exonere os réus. Eles fizeram escolhas. E essa constatação é o cerne do alerta contemporâneo do filme.
O filme tece, com habilidade, questões de poder e manipulação, mostrando como a retórica e o carisma podem ser armas mais perigosas que qualquer exército. O contexto de justiça versus vingança permeia os corredores do tribunal, enquanto a tradição de um julgamento sumário cede lugar à modernidade árdua de um processo legal internacional. Em sua conclusão mais pungente, o filme argumenta que o verdadeiro perigo não está no surgimento de um demônio único, mas na adesão coletiva, na complacência silenciosa e na racionalização gradual do horror por pessoas comuns. A pergunta que Göring lança a Kelley – se um dia ele reconheceria que os nazistas eram “humanos” – ecoa muito além dos muros da prisão, desafiando nossa própria compreensão sobre responsabilidade e capacidade para o mal.
Um Espelho Necessário e Inconfortável
Nuremberg é um filme ambicioso que, em seus melhores momentos, atinge uma profundidade psicológica rara. Ele é sustentado por duas performances excepcionais que transformam um encontro histórico em uma batalha metafísica pela alma. Se por um lado a narrativa mostra algumas fissuras em seu ritmo e na integração entre o psicológico e o jurídico, sua força temática e emocional é inegável. Mais do que uma aula de história, é um espelho colocado diante do presente, um lembrete solene e perturbador de que as engrenagens do totalitarismo e do ódio coletivo não são operadas por criaturas de outro mundo, mas por decisões humanas, corriqueiras e, por isso, repetíveis. É um filme que não oferece conforto, mas exige reflexão – e, nisso, cumpre um papel vital.
Nota IMDb: 7.4/10
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