Na vastidão árida do cinema, poucos personagens deixaram rastros tão profundos e poeirentos quanto Max Rockatansky. Mais do que uma simples série de filmes, a saga criada por George Miller é uma coleção de mitos modernos, contados e recontados como lendas ao redor de fogueiras em um mundo pós-apocalíptico.
A saga Mad Max começou em 1979 como um filme australiano de orçamento modesto e evoluiu para um dos pilares do cinema de ação. Criada por George Miller, um ex-médico de emergência, a franquia transcende a mera cronologia linear. Miller descreve os filmes como “mitos de um andarilho”, onde a consistência emocional e temática importa mais do que uma linha do tempo rígida.
Este guia percorre todas as adaptações da franquia, explica sua fascinante (e não linear) conexão canônica e revela um detalhe essencial para fãs e cinéfilos: a paixão de George Miller pelo preto e branco, que gerou edições especiais “Black & Chrome” de seus filmes mais recentes, consideradas por muitos a forma definitiva de experimentar sua visão.
Guia da Franquia Mad Max: A Jornada no Wasteland
A tabela abaixo organiza a franquia pelas duas perspectivas principais: a ordem de lançamento e a ordem interna da história.
| Ordem de Lançamento (Ano) | Título | Diretor | Ordem Cronológica Interna (Linha de Tempo Principal) |
| 1 (1979) | Mad Max | George Miller | 1. Mad Max (sociedade em colapso) |
| 2 (1981) | Mad Max 2: O Guerreiro da Estrada | George Miller | 2. Mad Max 2: O Guerreiro da Estrada (colapso completo) |
| 3 (1985) | Mad Max: Além da Cúpula do Trovão | George Miller & George Ogilvie | 3. Mad Max: Além da Cúpula do Trovão (formação de novas comunidades) |
| 4 (2015) | Mad Max: Estrada da Fúria | George Miller | 4. Furiosa: Uma Saga Mad Max (prequel, ~15 anos antes de Estrada da Fúria) |
| 5 (2024) | Furiosa: Uma Saga Mad Max | George Miller | 5. Mad Max: Estrada da Fúria (ponto culminante da saga de Furiosa) |
1. Mad Max (1979)
Diretor: George Miller
Nota IMDb: 6.8/10
Este é o início de tudo. Max Rockatansky (Mel Gibson) é um policial tentando manter a ordem em uma sociedade à beira do colapso. A tragédia pessoal o transforma em um vingador solitário. O filme estabeleceu o tom raw e visceral, além da estética “ozploitation”, com ações reais e perigosas que definiram o DNA da franquia.
2. Mad Max 2: O Guerreiro da Estrada (1981)
Diretor: George Miller
Nota IMDb: 7.6/10
Aqui, o colapso é total. Max, agora um andarilho cínico, vaga pelo deserto. O filme é a pedra angular do gênero pós-apocalíptico, com perseguições de veículos insanas e o visual “escavador de lixo” que influenciaria gerações de cineastas.
3. Mad Max: Além da Cúpula do Trovão (1985)
Diretor: George Miller e George Ogilvie
Nota IMDb: 6.2/10
Max encontra a Bartertown, uma cidade-estado governada pela Tia Entity (Tina Turner). O filme expande o mundo e explora Max como uma figura quase messiânica. Apesar de divisivo, introduz conceitos icônicos como a arena do “Thunderdome” (“duas pessoas entram, uma sai”).
4. Mad Max: Estrada da Fúria (2015)
Diretor: George Miller
Nota IMDb: 8.1/10
Um marco do cinema moderno. Após décadas, Miller retorna com Tom Hardy como Max, que se envolve na fuga da Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) do tirano Immortan Joe. É um balé de metal e fúria, aclamado por sua ação prática e narrativa visual, vencendo 6 Oscars.
Black & Chrome Edition: George Miller preparou uma versão especial em preto e branco, que ele chamou de “Black & Chrome”. Para o diretor, esta não é apenas uma versão alternativa, mas “a melhor versão do filme”, removendo a cor para revelar uma textura mais crua, gráfica e elemental da ação e da fotografia.
5. Furiosa: Uma Saga Mad Max (2024)
Diretor: George Miller
Nota IMDb: 7.5/10
Este prequel conta a origem de Furiosa (Anya Taylor-Joy), raptada do “Lugar Verde” e presa entre os tiranos Dementus e Immortan Joe. Diferente do ritmo frenético de Estrada da Fúria, é uma saga épica de vingança que se desenrola ao longo de anos, expandindo ricamente a mitologia do Wasteland.
Tinted Black & Chrome: Seguindo seu conceito artístico, Miller já finalizou uma versão em preto e branco de Furiosa, que ele batizou de “Tinted Black & Chrome”. Ele descreve que a ausência de cor confere um drama mais “elemental” à narrativa, focando a atenção na composição, nas sombras e na pura essência da luta.
Conexão Canônica: Mitos, Não Linha do Tempo
Uma das perguntas mais fascinantes sobre a franquia é: tudo se conecta? A resposta de George Miller é clara e fundamental para entender sua obra: os filmes são “histórias independentes” e “mitos de um andarilho contados ao redor de fogueiras”.
Não há uma cronologia perfeita. Estrada da Fúria é considerado por Miller um episódio na vida de Max, que “provavelmente” acontece depois de Além da Cúpula do Trovão, mas em uma linha temporal onde os eventos dos filmes anteriores podem ter ocorrido de forma ligeiramente diferente. Max é um arquétipo, uma lenda. Cada filme é uma narração dessa lenda, onde a verdade emocional prevalece sobre os detalhes factuais. Furiosa, por sua vez, se conecta diretamente a Estrada da Fúria em sua narrativa, mas também funciona como um mito de origem autônomo.
A Visão em Preto e Branco: A Assinatura do Artista
A criação das edições “Black & Chrome” vai além de um capricho; é a chave para entender a visão estética madura de George Miller. Para ele, remover a cor despeja a imagem de seus elementos decorativos, revelando a arquitetura pura do cinema: a luz, a sombra, o contraste e o movimento.
Enquanto a versão colorida de Estrada da Fúria é uma explosão de laranjas, azuis e cromados queimados pelo sol, a versão preto e branco transforma a película em um conto gráfico em movimento, onde a textura do metal, a poeira e os rostos ganham uma crueza quase documental. É uma experiência que muitos consideram mais intensa e focada, a forma como o próprio criador preferiu apresentar sua obra-prima. O anúncio de uma versão similar para Furiosa confirma que isso é uma parte intrínseca de seu processo criativo contemporâneo.
A Estrada para Valhalla é em Preto e Branco
A jornada por Mad Max é, no fim, a jornada pela mente de um artista único. George Miller começou com um thriller de vingança caseiro e, décadas depois, redefine os limites do cinema de ação com uma obra que é ao mesmo tempo um blockbuster e uma declaração de arte visual. A franquia nos ensina que as melhores histórias são como mitos: resilientes, mutáveis e sempre poderosas, independentemente da ordem em que são contadas.
E o compromisso de Miller com as versões Black & Chrome é o testemunho final de seu olhar de auteur. É ele dizendo que, por baixo da tinta vibrante do caos, existe um esqueleto de puro cinema, eterno e elemental.
E você, viajante do asfalto? Já experimentou a intensidade das versões Black & Chrome? Acha que o preto e branco eleva o mito a um novo patamar, ou a cor é parte insubstituível do Wasteland? Conte nos comentários qual é a sua versão definitiva dessa lenda!