Em um ano televisivo que muitos consideraram morno, Pluribus (Apple TV, 2025) emerge não como um estrondo, mas como um eco persistente e inquietante. A primeira série solo de Vince Gilligan após o fenômeno Breaking Bad e sua espinhosa descendente Better Call Saul abandona o terreno do crime pelo da ficção científica filosófica. O resultado é uma obra que divide opiniões com a ferocidade de um raio: para alguns, um estudo de personagem majestoso e meditativo; para outros, um exercício de paciência frustrantemente lento. Após acompanhar os nove episódios da primeira temporada, compreendo ambos os lados, mas meu veredito pende decisivamente para o primeiro grupo. Pluribus é uma ousadia narrativa que troca a adrenalina pela angústia existencial, entregando uma das experiências mais originais e tecnicamente impecáveis dos últimos tempos.
Narrativa: O Ritmo Deliberado da Desesperança
A premissa de Pluribus é de enganosamente simples: um sinal extraterrestre se revela um vírus RNA que, em uma noite, transforma a quase totalidade da humanidade em uma mente coletiva pacífica e plenamente satisfeita, conhecida como “Os Outros”. Apenas 13 indivíduos, por motivos desconhecidos, permanecem imunes. Entre eles está Carol Sturka (Rhea Seehorn), uma autora de romances “romantasy” cínica e fechada, que perde sua esposa e agente, Helen (Miriam Shor), no caos inicial.
Aqui reside a primeira e maior virtude da narrativa: sua inversão genial do pós-apocalipse. Não há zumbis, nem paisagens carbonizadas. O mundo é limpo, seguro e funcional. A grama está aparada, a eletricidade funciona e uma inteligência coletiva atende a (quase) todos os seus desejos. O conflito não é pela sobrevivência física, mas pela preservação da alma. A pergunta que move a trama não é “como derrotar o inimigo?”, mas “vale a pena derrotar uma entidade que erradicou a guerra, a fome e a infelicidade?”. Esta ambiguidade moral é o motor da série e é explorada com uma paciência que beira o devocional.
Esse ritmo, porém, é a faca de dois gumes que corta o público ao meio. Gilligan, um mestre do “processo”, dedica minutos inteiros a sequências como Carol vasculhando um supermercado vazio, anotando meticulosamente fatos sobre os Outros em um quadro branco, ou viajando de carro pelo deserto. São cenas que respiram, que constroem uma claustrofobia existencial palpável. Para o espectador investido, é hipnótico. Para quem busca avanço plotístico tradicional, é um suplício. A série assume o risco de ser chamada de “chata” e, em alguns momentos do meio da temporada, o equilíbrio realmente oscila para o tédio, com repetições do mesmo conflito interno de Carol.
No entanto, a escrita é precisa e cheia de nuances. A relação simbiótica e doentia que Carol desenvolve com Zosia (Karolina Wydra), a “anfitriã” que a mente coletiva designa para servi-la, é um estudo fascinante de dependência e autoengano. A revelação de que a entidade se alimenta de Proteína Derivada de Humanos (os corpos dos que não sobreviveram à Junção) é um golpe narrativo horrífico e brilhante. A narrativa, portanto, é como seu próprio tema: exige uma entrega total para ser apreciada. Quem se recusa a assimilar, como a protagonista, pode se sentir excluído.
Elenco e Atuações: A Humanidade como Performance
Se a premissa é abstrata, a humanidade da história é concretizada por um elenco extraordinário, liderado por uma atuação que merece todos os adjetivos superlativos.
Rhea Seehorn como Carol Sturka é nada menos que espetacular. Após roubar cenas como Kim Wexler em Better Call Saul, Seehorn assume o centro do palco e comanda com uma força ímpar. Sua Carol é raivosa, egoísta, vulnerável e profundamente triste. Seehorn domina a linguagem corporal: os ombros tensionados, o olhar que oscila entre o desafio e o pavor, a voz quebrada pela dor da perda. Ela consegue fazer de uma discussão sobre a mensagem de voicemail da mente coletiva um momento de alta tensão dramática. É um personagem deliberadamente difícil, mas Seehorn injeta tanta verdade em suas falhas que é impossível não se conectar com sua solidão absoluta.
Karolina Wydra como Zosia realiza a proeza de interpretar uma entidade coletiva que tenta parecer humana. Seu sorriso é sempre um pouco largo demais, sua empatia um pouco robótica. Wydra captura perfeitamente o desconforto de uma inteligência tentando decifrar e mimar seu “hóspede”. A cena em que, ferida, ela pergunta a Carol “Eu sou real para você?” é de uma melancolia devastadora.
O restante do elenco, embora com menos tempo de tela, deixa marcas profundas. Carlos-Manuel Vesga transmite uma paranoia visceral e trágica como Manousos, o imune que se esconde em um depósito no Paraguai. Samba Schutte traz um contraponto hedonista e cínico eficaz como Koumba Diabaté. E Miriam Shor, em flashbacks, dá ao relacionamento de Carol com Helen um peso emocional crucial que justifica toda a jornada da protagonista.
Direção e Fotografia: A Beleza Árida do Fim do Mundo
A assinatura visual de Gilligan e sua equipe é inconfundível e elevada aqui por um orçamento robusto. A fotografia de Marshall Adams e Paul Donachie transforma as paisagens do Novo México em um personagem silencioso. A luz do deserto é ao mesmo tempo gloriosa e implacável, iluminando a solidão de Carol com uma clareza crua. As composições são meticulosas, muitas vezes usando simetrias ou enquadramentos apertados para transmitir tanto a ordem imposta pela mente coletiva quanto a prisão mental da protagonista.
A direção de Gilligan e de colaboradores frequentes é paciente e confidente. Uma sequência notável, frequentemente citada, mostra Carol revirando um contêiner de lixo em busca de provas. O que poderia ser uma cena corriqueira se torna um balé quase abstrato de sombras e texturas, elevando um ato repulsivo a uma expressão visual poderosa. A produção de som e a trilha ambientais de Dave Porter completam a atmosfera, criando um mundo que parece estar sempre em um silêncio expectante, perturbado apenas pelo eco dos passos de Carol ou pelo zumbido quase inaudível da presença coletiva.
Temas: A Guerra Interior pelo Direito de Ser Eu
Pluribus é, acima de tudo, uma série sobre identidade. A “Junção” é a metáfora definitiva para todas as formas de assimilação forçada: conformidade social, apagamento cultural, dogmatismo ideológico. A reação visceral de Carol, uma mulher que escondeu sua sexualidade por anos e sofreu terapia de conversão, não é apenas teimosia; é um trauma reativado. A série pergunta: o que resta de você se todas as suas escolhas, até as más, forem removidas? A paz universal tem o preço da individualidade?
Os temas de poder e moralidade são igualmente complexos. Carol detém um poder absurdo: sua raiva pode matar milhões conectados à mente coletiva. A entidade, por sua vez, detém o poder de conceder qualquer desejo, um mecanismo de controle sedutor. A moralidade aqui não é preto e branco. A mente coletiva não é malévola; é simplesmente outra. Ela acredita genuinamente que está oferecendo o melhor para a humanidade. Esse conflito entre duas percepções incompatíveis de “bem” é o cerne da tragédia da série.
A tensão entre como era (a humanidade individual, falha, emocional) e como passou a ser (a eficiência coletiva, racional, pacífica) é palpável. A série, no entanto, evita um julgamento fácil. Ela mostra o lado sedutor da “modernidade” oferecida pelos Outros, enquanto valoriza profundamente a “tradição” humana representada pela dor, pela memória e pelo amor imperfeito.
Uma Obra para Ser Assimilada, Não Apenas Assistida
Pluribus não é uma série para consumo passivo. Ela exige engajamento, paciência e uma disposição para habitar o desconforto de sua protagonista. Seus defeitos – um ritmo que pode ser glacial e uma repetição ocasional de beats emocionais – são intrínsecos à sua ambição. Este não é um thriller sci-fi de resolução fácil; é um estudo de personagem monumental disfarçado de história de invasão alienígena.
Os feitos técnicos são superlativos, a atuação de Rhea Seehorn é uma aula e a profundidade temática oferece material para reflexão por muito tempo após os créditos finais. Em um cenário de streaming que frequentemente prioriza o instantâneo, Pluribus é um compromisso de longo prazo. Para quem aceitar seu pacto, a recompensa é uma experiência televisiva rara, ousada e profundamente humana sobre o que significa, afinal, permanecer humano.
Nota IMDb: 8.5/10
E aí, O que achou do Review? Já assistiu Pluribus? Compartilhe nos comentários!