Existe um momento particularmente doloroso em Jay Kelly onde o protagonista, um astro de cinema interpretado de forma majestosa por George Clooney, tenta chorar para uma cena e descobre que o mecanismo não funciona mais. As lágrimas técnicas, aquelas que ele comandava sob demanda por décadas, se recusam a sair. Este é o núcleo do mais recente filme de Noah Baumbach: uma investigação incômoda sobre o que acontece quando a persona consome a pessoa, quando a vida se torna uma sucessão de takes e a autenticidade é um conceito abstrato, um diretor distante que nunca deu as instruções corretas. Não se trata de uma sátira fácil sobre Hollywood, mas de uma elegia sombria para a identidade perdida no brilho opaco dos holofotes.
A Jornada do Fantasma: Narrativa Entre o Afiado e o Ambíguo
A trama segue Jay Kelly, um ator de status lendário, cuja existência perfeitamente coreografada desanda com a morte do diretor que o lançou, Peter Schneider. Este fato age como um pequeno rasgo no tecido imaculado de sua realidade, rasgando-se até expor um vazio por trás. Em uma fuga impulsiva que ele insiste em chamar de busca, Jay abandona as filmagens de um blockbuster e parte para a Europa atrás de Daisy, sua filha mais nova que vive de forma nômade, arrastando consigo seu manager e sua publicista. O que Baumbach constrói a partir daí é um “road movie” desencantado, onde cada parada, um festival de cinema na Itália, um encontro forçado com um amigo do passado, uma busca desajeitada por Daisy em Berlim, serve menos como progressão narrativa e mais como espelho quebrado, refletindo pedaços distorcidos de um homem que não se reconhece.
A virtude da narrativa está justamente nessa recusa em oferecer uma jornada de redenção convencional. Os diálogos são como estilhaços de vidro: cortantes, precisos e perigosos. A sequência no trem, onde um pequeno ato de Jay é filmado e viraliza, transformando um momento de puro cálculo em um ato heroico involuntário, é uma obra-prima de ironia ácida sobre a fabricação de narrativas públicas. No entanto, e aqui reside sua principal fraqueza, o filme por vezes parece tão ensaiado quanto seu protagonista. A estrutura segue um mapa muito familiar do “homem em crise em cenários pitorescos”, e certos encontros, como a conversa com seu pai, vivido por Stacy Keach, soam mais como checkpoints temáticos obrigatórios do que como interações orgânicas. O roteiro, inteligentíssimo, nem sempre disfarça seu próprio artifício.
Elenco e Atuações: O Eco da Persona
O filme vive e respira através de suas performances, que são, em sua essência, um jogo de espelhos. George Clooney, como Jay Kelly, realiza um ato de desmontagem pública fascinante. Ele usa toda a sua bagagem de estrela, o charme fácil, a voz aveludada, a postura de quem é dono do espaço, e a esvazia por dentro. Vemos o esforço muscular para manter o sorriso, o pânico contido quando percebe que não tem um roteiro para a vida real, a terrível suspeita de que pode ser, no fundo, um homem medíocre. É uma atuação corajosa, que não busca simpatia, mas um reconhecimento incômodo.
Adam Sandler, como Ron Sukenick, o manager, é o contraponto emocional perfeito. Sandler abandona qualquer traço de sua persona cômica para entregar uma performance de uma resignação devastadora. Ron é um homem que construiu um castelo em cima de areia movediça, a carreira de Jay, e passa os dias tapando furos com os dedos. Seu olhar carrega o cansaço de décadas de servir a um ídolo que ele sabe ser de barro, e o amor que ainda persiste ali é a coisa mais trágica do filme. A cena em que ele confronta Jay sobre finanças, transformando décadas de lealdade em uma transação fracassada, é de uma quietude eletrizante.
O elenco de apoio é uma constelação de talentos, mas alguns brilham com mais autonomia que outros. Laura Dern, como a publicista Liz, tem o momento de libertação mais satisfatório do filme, quando simplesmente decide descer do trem e sumir no mundo real, abandonando a fantasia. Billy Crudup, em uma única cena extensa, rouba a tela como Timothy, um ex-colega de teatro cujo ressentimento fermentado explode em um monólogo que é um veredito sobre o preço do sucesso. Já Grace Edwards, como Daisy, luta para dar profundidade a um papel que é mais um símbolo — o futuro inatingível, a pureza perdida — do que uma pessoa completa.
Direção e Linguagem Visual: A Beleza do Isolamento
Baumbach dirige com uma mão firme e um olhar clinicamente compassivo. A fotografia, a cargo de Linus Sandgren, é deslumbrante de uma forma que machuca. Ela captura o dourado dos festivais italianos, o azul grisalho de Berlim, o verde opressivo dos campos ingleses, sempre enquadrando Jay Kelly como uma figura isolada nesses cenários. Mesmo em meio à multidão, ele está sozinho no quadro. O uso de espelhos, vidros e superfícies reflexivas é constante e inteligente, nunca didático. A câmera observa como um documentarista que perdeu a fé no seu assunto, registrando não a glória, mas a lenta erosão de uma fachada.
A montagem, por vezes, brinca com a memória cinematográfica de Jay, intercalando flashes de seus filmes antigos com a realidade presente, borrando as linhas entre a experiência vivida e a experiência filmada. Esta é a grande questão visual que Baumbach propõe: para alguém como Jay, existe diferença?
Temáticas: O Preço do Sucesso
Para além da fachada da sátira industrial, Jay Kelly mergulha em águas temáticas mais profundas e turbulentas. Seu cerne é a crise da autenticidade na era da performance permanente. Jay não é um hipócrita; ele é um vazio. Sua personalidade é um conjunto de maneirismos de seus personagens, suas relações são geridas por contratos e assessores, sua história é um press release. O filme pergunta: como se redime, como se cura, alguém que nunca foi inteiro para começar?
Isso se entrelaça com o tema do arrependimento como um músculo atrofiado. Jay não sente remorso de forma orgânica; ele tenta performar o arrependimento, buscar cenários que pareçam propícios para ele. Sua tentativa de reconectar com as filhas é menos sobre paternidade e mais sobre uma busca desesperada por um roteiro que lhe dê um novo arco de personagem. A modernidade líquida que Baumbach retrata colide com a tradição rígida do sistema que Jay representa. Ele se vê como um dinossauro, um artefato de uma era onde a imagem era cuidadosamente talhada em mármore, agora perdido em um mundo de stories efêmeros e cancelamentos instantâneos. Sua crise é, também, a crise de um modelo de fama que não sabe mais como existir.
Um Grito no Vácuo do Eco
Jay Kelly é um filme que incomoda mais do que emociona, e essa é a sua força. Ele não oferece o abraço reconfortante de uma catarse, mas o aperto de mão frio de um diagnóstico. Suas falhas — um certo academicismo na estrutura, a subutilização de um elenco magnífico — são quase inerentes ao seu projeto ambicioso de falar sobre vacuidade sem se tornar vazio.
O final é um movimento de genialidade melancólica. Jay, após um périplo que mudou quase nada, recebe uma homenagem. Vemos uma montagem de seus grandes momentos no cinema, e a câmera lenta captura seu rosto banhado pela luz, a plateia em pé ovacionando. Por um instante, a persona se recompõe perfeitamente. Mas então, Baumbach corta para o close final: nos olhos de Clooney/Kelly, não há gratidão ou alegria, apenas um pavor abissal, o silêncio aterrador de quem ouve apenas o eco de seu próprio nome e nada mais. É a confissão última do filme: para alguns, a única solidão verdadeira é a que se experimenta no centro do palco, sob os aplausos. Jay Kelly não precisa encontrar a si mesmo; ele precisa inventar alguém para habitar aquele corpo famoso antes que as luzes se apaguem de vez.
Nota IMDb: 6.8/10
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