Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out – Fé, Ganância e um Cadáver na Igreja


O detetive Benoit Blanc enfrenta seu caso mais sombrio em uma pequena cidade onde a fé se transformou em fanatismo e os segredos são enterrados junto com os mortos. Em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025), Rian Johnson leva sua franquia de assassinatos para dentro dos muros de uma igreja decadente, trocando mansões por bancos de madeira e herdeiros bilionários por fiéis desesperados. O resultado é um filme que mantém a fórmula afiada da série, mas a embala em uma atmosfera carregada de gótico religioso, onde o verdadeiro mistério não é apenas quem matou, mas em que nome o fez.


A Anatomia de um Crime “Impossível”

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Em Vivo ou morto, a narrativa de Johnson é, como sempre, um relógio suíço de pistas e reviravoltas. O filme investe um tempo precioso na primeira hora para apresentar o padre Jud Duplenticy (Josh O’Connor), um novato idealista enviado a uma paróquia comandada com punho de ferro pelo corrupto Monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin). A dinâmica de poder entre os dois – um representando uma fé dogmática e exploradora, outro uma espiritualidade genuína e acolhedora – é o motor dramático que antecede o crime. Quando Wicks é assassinado em pleno sermão, em um cenário que parece um “crime impossível”, todos os olhos se voltam para Jud.

Aqui reside uma das grandes virtudes do roteiro: a paciência. Johnson tece uma teia complexa de suspeitos, cada um com motivos tangíveis ligados à ganância pela valiosa “Maçã de Eva”, um diamante lendário ligado à história da igreja. A investigação de Benoit Blanc (Daniel Craig) desvenda não apenas um assassinato, mas um esquema que envolve falsas ressurreições, venenos e uma crítica mordaz à instrumentalização da fé. No entanto, essa riqueza tem um preço. Para alguns, o ritmo da primeira metade pode parecer deliberadamente lento, um investimento que paga no terço final, mas que exige paciência do espectador. Além disso, em meio a um elenco estelar, alguns personagens secundários, como o youtuber Cy Draven (Daryl McCormack) ou a violoncelista Simone (Cailee Spaeny), têm pouco espaço para se desenvolver além de seus arquétipos, funcionando mais como peças no tabuleiro do que como pessoas de carne e osso.


Elenco e Atuações: Um Coro de Suspeitos de Primeira Linha

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O filme é uma celebração da arte da interpretação, reunindo um elenco que parece se divertir imensamente com a complexidade dos personagens.

Josh O’Connor como Padre Jud é, sem dúvida, o coração e a alma do filme. O ator transmite uma vulnerabilidade cativante e uma força moral silenciosa, carregando nas costas o peso emocional da trama. Seu Jud é um homem dividido entre a devoção e a dúvida, tornando-se a âncora humana perfeita para o espetáculo de excentricidades ao seu redor.

Daniel Craig como Benoit Blanc está mais contido e cético do que nunca. Seu deboche característico encontra um terreno fértil no ambiente religioso, gerando diálogos hilariantes e blasfemos. Craig domina o personagem com uma naturalidade absoluta, tornando cada olhar de desconfiança e cada frase um deleite.

Glenn Close como Martha Delacroix é um estudo magistral de fanatismo e desespero. Por trás da aparência de beata devota, Close esconde uma frieza calculista e uma dor profunda, entregando uma atuação que é tanto assustadora quanto tragicamente comovente.

Josh Brolin como Monsenhor Wicks personifica a corrupção do poder religioso com uma presença imponente e carismática. Sua performance é crucial para que odiemos o personagem, mas também para entendermos o magnetismo que exerce sobre seus seguidores.

Jeremy Renner como Dr. Nat Sharp e Mila Kunis como a Chefe de Polícia Geraldine Scott completam o quadro principal com competência, embora seus personagens, em particular o de Renner, acabem por ser mais funcionais ao plot do que profundamente explorados.


Direção, Fotografia e a Atmosfera Gótica

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Rian Johnson abraça plenamente o setting religioso para criar o visual mais marcante da franquia. A fotografia de Steve Yedlin joga com a luz que atravessa os vitrais, criando contrastes dramáticos entre a santidade aparente e a podridão escondida nas sombras dos corredores da igreja. A direção de arte de Rick Heinrichs é impecável, transformando a paróquia em um personagem por si só: austera, decadente e cheia de cantos escuros onde segredos podem ser sussurrados.

Johnson também se aventura no terreno do horror, especialmente no último ato, com sequências que evocam slashers e terror psicológico, aumentando consideravelmente a tensão. A trilha sonora de Nathan Johnson, com seus corais soturnos e melodias de cordas, é a cereja do bolo desta atmosfera perfeitamente construída.


Temas: A Batalha entre a Fé e a Razão

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Muito além de um simples whodunit, Vivo ou Morto é um filme sobre crenças. Ele coloca em choque a fé cega e exploradora (Wicks) contra a fé genuína e questionadora (Jud), e ambas contra o ceticismo racionalista de Benoit Blanc. O filme critica abertamente como instituições religiosas podem ser corrompidas pelo poder e pela ganância, manipulando a vulnerabilidade dos fiéis. A “Maçã de Eva”, objeto de cobiça de todos, simboliza não só a riqueza material, mas o fruto proibido do conhecimento e da tentação que destrói comunidades inteiras.

A narrativa também explora o conflito entre tradição e modernidade, não apenas na igreja, mas na própria cidade, e questiona se a verdade, uma vez revelada, deve sempre vir à tona, ou se às vezes é mais sábio deixá-la repousar para o bem maior.


Um Sacramento Bem Administrado, com Alguns Fiéis Distraídos

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out consolida Benoit Blanc como um dos grandes detetives do cinema moderno e prova que Rian Johnson ainda tem muito a dizer dentro do gênero. É um filme mais ambicioso e atmosférico que seus predecessores, com uma crítica social mais incisiva e atuações de alto nível, especialmente a de Josh O’Connor. A recompensa para quem se entregar ao seu ritmo deliberado é um final inteligente e satisfatório, repleto de reviravoltas dignas de Agatha Christie.

No entanto, a busca por complexidade na teia de suspeitos acaba deixando alguns fios narrativos um pouco soltos e personagens subutilizados em seu elenco estelar. É um pecado menor, mas perceptível. No balanço final, a fé no talento de Johnson e Craig é amplamente recompensada. Vivo ou Morto é um mistério robusto, visualmente deslumbrante e tematicamente rico, que honra a tradição do gênero enquanto injeta nele uma dose saudável de cinismo e estilo contemporâneo.

Nota IMDb: 7.5/10

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